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Lúcio Costa, arquiteto-pensador

10/12/2014 06:00:17

Lúcio Costa – criador do Plano Piloto de Brasília.
Lúcio Costa – criador do Plano Piloto de Brasília.

Por Carlos Ávila

“Trabalhei cerca de 12 anos ao lado de Lúcio Costa, num canto de sala do Ministério da Educação. Entre a divisão de madeira e uma fila de arquivos de aço, formou-se um corredor com duas mesas. Para chegar à dele, Lúcio passava pela minha. Dirigia-me um olá silencioso e, vez por outra, dava um leve toque no meu ombro. Pouco nos falávamos, mas nos entendíamos bem”.

Foi assim que Carlos Drummond de Andrade traçou a figura do arquiteto e urbanista Lucio Costa (1902/1998), evocando numa crônica a época em que ambos trabalharam juntos no antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, no Rio de Janeiro, órgão concebido a partir de anteprojeto de Mário de Andrade e conduzido com firmeza e competência durante trinta anos por Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898/1969).

Rodrigo, mineiro de Belo Horizonte, abdicou de uma carreira promissora de escritor (seu único livro publicado, “Velórios”, uma coletânea de sete contos, foi bem recebido pela crítica na época do lançamento – 1936) para defender e preservar nossa memória cultural. Rodrigo – “o grande e puro leão de chácara do nosso humilde patrimônio histórico e artístico”, nas palavras de Vinicius de Moraes – em torno do qual gravitaram algumas das melhores cabeças deste país: pesquisadores, historiadores, arquitetos, engenheiros, restauradores, jornalistas, escritores etc.

Drummond diz mais no seu “retrato” de Lúcio Costa: “Não tinha nem de leve ar importante, e parecia mesmo querer se ocultar de todos e de tudo, até o nome de Lúcio Costa. Tanto que assinava os seus pareceres com um esmaecido LC, saído do toco de um lápis que era todo seu equipamento de trabalho. Quando preferia não assinar nada, o que realmente dava no mesmo, pois todos os seus pronunciamentos, escritos com a mesma ponta de lápis, eram identificáveis à primeira vista. A letra não era das mais fáceis, mas de cunho elegante, e as ideias e opiniões de Lúcio vinham iluminadas por um claro raciocínio e um original e livre ponto de vista”.

Assim como o escritor argentino Bioy Casares (cujo centenário de nascimento foi em setembro) acabou um tanto ofuscado pelo seu parceiro literário, também portenho, o monumental Borges, Lúcio Costa – criador do Plano Piloto de Brasília, o projeto urbanístico para a nova capital do país – também teve seu nome encoberto pelo famosíssimo, inclusive internacionalmente, Oscar Niemeyer (1907/2012). Mas Lúcio, injustamente esquecido e não citado muitas vezes, é tão grande quanto aquele, por sua posição ético-estética, sua vida/obra exemplar, suas realizações dentro e fora do SPHAN.

Seguem abaixo algumas frases/ideias do arquiteto-pensador(retiradas do seu imprescindível “Arquitetura”, que precisa ser urgentemente relançado):

“arquitetura é coisa para ser exposta à intempérie;

arquitetura é coisa para ser concebida como um todo orgânico e funcional;

arquitetura é coisa para ser pensada, desde o início, estruturalmente;

arquitetura é coisa para ser encarada na medida das ideias e do corpo do homem;

arquitetura é coisa para ser sentida em termos de espaço e volume;

arquitetura é coisa para ser vivida.

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