Blog CULTURA

Morelenbaum

12/12/2014 06:00:04

Morelenbaum: violoncelo no samba.
Morelenbaum: violoncelo no samba.

Por Carlos Ávila

O violoncelo é um instrumento que, na família das cordas, ocupa um lugar entre a viola e o contrabaixo. “É montado com quatro cordas de tripa, sendo bordões a terceira e a quarta, como nos outros instrumentos da família. Afina-se uma oitava abaixo da viola: lá ré sol dó (de cima para baixo). Executa-se verticalmente entre as pernas do tocador, e, para não escorregar, fixa-se no solo por meio de um espigão” – ensina o precioso “Dicionário de Música” dos compositores/musicólogos portugueses Tomás Borba e Fernando Lopes Graça (Edições Cosmos – Lisboa, 1963). Instrumento expressivo, o cello é o tenor e o baixo da família dos violinos; surgiu no século 16, confeccionado por artesãos de Cremona, na Itália.

Atualmente, quando se fala em violoncelo no Brasil, dois nomes surgem de imediato: Antônio Menezes, na área erudita; e Jaques Morelenbaum, no campo da música popular. Menezes vem fazendo uma exitosa carreira internacional como solista e ainda em duo com pianistas do nível de Nelson Freire, Cristina Ortiz, Gérard Wyss e Maria João Pires. Sua gravação das “Seis Suítes para Violoncelo Solo”, de Bach, é uma joia rara.

Já Morelenbaum vem gravando e se apresentando com grupos próprios e ainda com os maiores nomes da nossa MPB, de Jobim a Caetano. Filho do maestro Henrique Morelenbaum, traz a música no sangue e na alma;estudou inicialmente no Brasil e mais tarde ingressou no New England Conservatory.É responsável por alguns dos melhores arranjos, gravações e shows que vêm acontecendo nas últimas décadas, ou seja, colabora para elevar o nível da canção popular no país.

Este ano, Morelenbaum lançou com o seu CELLOSAMBATRIO – integrado por ele, pelo violonista Lula Galvão e pelo percussionista Rafael Barata – um primoroso CD intitulado “Saudade do Futuro/Futuro da Saudade”, onde são interpretados temas dele e composições de outros músicos como Jacó do Bandolim, Jobim, João Donato, Carlos Lyra, Caetano e Gil. É, sem dúvida, um dos melhores CDs lançados em 2014; merecia um prêmio. Saiu pelo selo Biscoito Fino.

O CD é muito bem trabalhado, resultando num som limpo e exato. Há todo um cuidado em adaptar, com criatividade, o sofisticado cello ao ritmo de sambas mais antigos (“Tim-tim por tim-tim” e “Receita de samba”), clássicos da bossa-nova e canções conhecidas como a delicada “Coração vagabundo”, de Caetano, ou a balançada “Eu vim da Bahia”, de Gil (que já tinha ganho, anteriormente, interpretação magistral de João Gilberto, no seu belo álbum branco; aliás, Morelenbaum a interpreta, como ele mesmo diz, “segundo João Gilberto”).

“A natural inteligência musical de Jaquinho” – observa com acerto Caetano no texto do encarte – “é de enorme abrangência e o ‘eu’ que se incrusta nela é de uma generosidade inacreditável. Agora, finalmente, temos um disco em que essa densa realidade humana – que temos o privilégio de ver desenvolvida entre nós – se mostra pura”.

Comentários