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Coloquial e irônico

17/12/2014 06:00:34

Uchoa Leite: poeta, tradutor e ensaísta.
Uchoa Leite: poeta, tradutor e ensaísta.

Por Carlos Ávila

O poeta Sebastião Uchoa Leite (1935/2003) é pouco conhecido e lido no Brasil, a não ser no restrito meio acadêmico (e por alguns poucos poetas). Nascido em Timbaúba (Pernambuco), considerava-se recifense, pois viveu grande parte de sua vida na capital do estado, onde cursou Direito e Filosofia; radicou-se no Rio de Janeiro em 1965. Morreu relativamente novo, depois de ter passado por vários problemas de saúde. Sua obra inclui dez livros de poemas e alguns de ensaio; realizou ainda traduções importantes como as de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll, e da poesia de François Villon.

Sebastião produziu uma poesia “refratária à eloquência ou às digressões sentimentais e metafísicas”, como observou com exatidão o crítico João Alexandre Barbosa. Sob a pele do texto de Sebastião – enxuto e direto, de feição coloquial-irônica – sente-se a segura estrutura construtiva que informa parte da poesia brasileira do século 20.

Seu livro “Antilogia”, com poemas escritos entre 1972 e 79, foi o momento da definição precisa de sua linguagem (antes já havia caminhado do soneto às experiências formais, influenciadas pelo concretismo). “Isso não é aquilo”, com poemas de 79 a 82, consolida o processo iniciado em “Antilogia”, incluindo concisão, coloquialidade, humor, ironia, citações e apropriações (marcas de sua poética daí em diante): “para não sentir/o peso deste tempo/embriagai-vos sem cessar/de vodka/de poesia/ou de violência”.

Em setembro de 2009, foi realizado um seminário sobre o poeta na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, com organização da ensaísta Flora Süssekind e do poeta-tradutor Júlio Castañon Guimarães – dois estudiosos competentes que dispensam apresentação. Neste ano, finalmente, foi lançado um volume reunindo os trabalhos apresentados no evento; trata-se, de saída, de material imprescindível a quem queira conhecer e estudar a obra de Sebastião.

Entre os nomes que assinam ensaios, artigos e depoimentos sobre Sebastião estão o crítico e professor Luiz Costa Lima, os poetas Duda Machado e Frederico Barbosa, as professoras/pesquisadoras Vera Lins (da UFRJ) e Viviana Bosi (da USP) e ainda Friedrich Frosch – tradutor e professor na Universidade de Viena. As traduções de Sebastião foram objeto de estudo de Myriam Ávila (da UFMG), que escreve sobre a recriação de “Alice”, e de Paula Glenadel (da UFP), que comenta as versões de Villon. Castañon e Süssekind também deram suas contribuições, a última analisando a relação do poeta com os quadrinhos; Sebastião era leitor dedicado dos comics – vários de seus poemas trazem citações ou alusões a eles – e também curtia filmes noir.

O volume da Casa Rui traz ainda um anexo com a reprodução de uma esclarecedora entrevista de Sebastião à extinta revista “34 Letras”. Nela ele afirma: “Dentro do conhecimento dos poetas do modernismo, eu distinguia, além da figura de João Cabral, outra figura lateral que era a de Joaquim Cardoso. E, antes deles dois, Manuel Bandeira”. Hoje, Sebastião Uchoa Leite pode ser incluído ao lado desses importantes poetas pernambucanos. Esse livro sobre sua obra, com densos estudos, é muito bem-vindo.

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