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Garoto – gênio do violão

19/12/2014 06:00:36

Garoto: virtuose do violão.
Garoto: virtuose do violão.

Por Carlos Ávila

Falar em violão brasileiro é lembrar-se, de saída, de dois nomes significativos: Turíbio Santos, na música erudita; e Baden Powell (1937/2000), na música popular. Turíbio é o responsável pela preservação, gravação e execução da obra violonística de Villa-Lobos; Baden, além de grande violonista, foi também compositor de vários clássicos da bossa-nova e criador, ao lado de Vinicius de Moraes, dos afro-sambas.

Mas antes dos dois, a “arte do violão” no país já contava com Garoto – Aníbal Augusto Sardinha (1915/1955) – gênio das cordas (tocava banjo, cavaquinho, bandolim, violino, violão e até guitarra havaiana) e mestre do instrumento; Turíbio e Baden gravaram músicas dele. “Improvisador emérito” – segundo o maestro e professor Mário Albanese – “criou novas estruturas para o violão que o transformaram em elo entre a música popular e a erudita, diminuindo o hiato existente entre ambas”.

Um pequeno livro idealizado e organizado por Albanese, “Garoto – o gênio das cordas”, lançado no ano passado pela SESI-SP Editora, traz depoimentos históricos de três amigos de Garoto: Ivo Araújo, José Raphael Musitano Pirágine e o próprio Albanese. A introdução é da jornalista Regina Pereira, primeira biógrafa de Garoto; a parte final apresenta um rico “álbum de fotos” e algumas partituras. Afora isso, acompanha o volume um CD com execuções de obras de Garoto, incluindo uma preciosa gravação original do violonista – registro feito em 55 na casa de Albanese, com este ao piano.

Bem menos conhecido do que Turíbio ou Baden, Garoto era um virtuose do violão e também um compositor excepcional. “Duas contas” (“Teus olhos são duas contas pequeninas/qual duas pedras preciosas/que brilham mais que o luar…”) e “Gente Humilde” (letrada posteriormente por Vinicius e Chico) são suas músicas mais gravadas. Mas ele compôs muito mais, inclusive diversos choros.

Cláudio Nunes de Morais (poeta e músico – expert em violão; profundo conhecedor do instrumento) observa que as composições de Garoto já antecipam a Bossa-Nova; “sua música para violão possui melodia e harmonia altamente sofisticadas para a época”. Ainda segundo ele, “a condução de vozes da mão esquerda apresenta especial dificuldade para a maioria dos violonistas, já que as canções de Garoto eram contrapontísticas”.

A rica e infelizmente breve trajetória de Garoto (ele morreu com apenas 39 anos!) inclui apresentações na Rádio Nacional, participação no conjunto Bando da Lua, que acompanhou Carmen Miranda nos Estados Unidos, e trabalhos em parceria com Radamés Gnattali. Garoto deixou uma obra importante no campo da música instrumental, que precisa ser mais divulgada. Espera-se que isso aconteça em 2015, quando será comemorado seu centenário de nascimento.

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