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Toques de Faustino

24/12/2014 06:00:38

Faustino: poeta de leitura obrigatória.
Faustino: poeta de leitura obrigatória.

Por Carlos Ávila

O grande Mário Faustino (1930/1962) – poeta, tradutor, crítico e jornalista – criou nos anos 1950, no Jornal do Brasil, uma ágil e movimentada página, a famosa “Poesia Experiência”, com várias seções, incluindo ensaios, poemas, resenhas, traduções etc. Entre seus pequenos ensaios, destaca-se a série “Diálogos de Oficina”, em que Faustino criou “uma conversa” entre dois fictícios poetas, abarcando os seguintes temas: “para que poesia?”; “o poeta e seu mundo” e “o que é poesia?”. São textos que continuam atualíssimos, e que todos aqueles que se interessam pela difícil arte da poesia deveriam conhecer. Seguem abaixo alguns extratos desses textos (incluídos no volume “Poesia Experiência”, da Ed. Perspectiva), toques certeiros de Faustino, um poeta de leitura obrigatória.

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Escrevemos para ensinar, para comover, para deleitar. Aquele que verdadeiramente vive um poema, imediatamente, por mais que disso não se dê conta, muda de vida.

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O poeta é, antes de mais nada, um homem que sente na carne e até os ossos a necessidade de experimentar (e não apenas de observar) o universo, modificando este, obrigando-o a reagir às palavras com que o poeta o ataca, celebra ou lamenta. A poesia provoca, deflagra, registra, sublima e decide a luta entre o poeta e o universo, luta que pode acabar ou pela derrota do artista – sempre de certo modo uma vitória – ou por um sereno pacto final entre os dois cosmos exterior e interior, reconciliados.

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O poema precisa funcionar como qualquer outra coisa. E para que possa fazê-lo, para que a poesia possa voltar a ser – como, sem dúvida, já o foi e potencialmente ainda o é – o mais eficaz, o mais perene, o mais exato meio de comunicação, é necessário, em suma, que o poema viva em função do tempo, do espaço e do homem – contra ou a favor, nunca indiferente.

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Um poema é bom ou mau, em si. Só pode ser julgado como e enquanto poema, e sempre no nível estético.

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Enquanto a poesia for olhada como passatempo, como brinquedo inofensivo, como coisa de maníacos, de despreocupados, de maus palhaços, ou de ruins carpideiras, não só serão maus os poetas como estará em perigo a sociedade, cujos poetas não estão cumprindo seu dever.

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A poesia é um pássaro versátil e bem pouco snob, capaz de fazer seu ninho em qualquer canto.

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