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O fim dos livros

26/12/2014 06:00:25

Livros e outros suportes: um novo cenário.
Livros e outros suportes: um novo cenário.

Por Carlos Ávila

“O Fim dos Livros”, de Octave Uzanne (1851/1931) – escritor, jornalista, editor e bibliófilo –, lançado há mais tempo pela Ed. Octavo, em tradução de Beatrice Gropp, do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/SP, traz um inusitado e visionário texto desse autor francês, que integra seus “Contos para bibliófilos”.

Provocante desde o título, que prevê o fim dos impressos (livros e jornais), na verdade o que espanta mesmo na obra é o cenário futuro pintado por Uzanne, já em 1894, ano de sua publicação. O autor antevê uma série de novos recursos e suportes técnicos relacionados ao mundo da palavra e do texto, enfim, da comunicação e da criação.

A pequena narrativa (uma espécie de miniconto, ou um quase ensaio ficcional) descreve um encontro entre eruditos e estudiosos num clube masculino na Londres vitoriana (isso logo após uma das sextas-feiras científicas da Real Instituição, com conferência de William Thompson, conhecido físico inglês e professor da Universidade de Glascow).

No clube, em meio a diálogos e debates, o grupo faz a “construção” de um cenário futuro, em várias áreas, cabendo ao narrador, provocado por um dos presentes, prever “o que ocorrerá com as letras, literaturas e livros dentro de cem anos”.

Alegando que a leitura provocava profundo cansaço – não só nos livros, mas também nos jornais (para ele a leitura do “Times” sobrecarregava nossos músculos de tensão) –, e adoecia nossos olhos, o narrador enfatiza a substituição do campo visual pelo auditivo, relacionando uma série de aparelhos e/ou suportes que substituiriam as publicações impressas: “cilindros de inscrição em celuloides, leves como porta-plumas para serem levados no bolso” ou ainda “fono-operadores de bolso”. Segundo também o narrador, “as bibliotecas serão as fonografotecas ou então as registrotecas”.

Espantoso! Uzanne fala com outros nomes de aparelhos ou ferramentas próximos dos que hoje são comuns a todos nós: laptop, iPhone, iPad, iPod etc. E de sistemas e redes de distribuição de informação também próximos dos atuais: a internet e suas derivações – Facebook, Twitter, Youtube etc.

O único senão à visão futurista de Uzanne seria sua ênfase apenas no áudio. Na verdade, estamos hoje, certamente, mais próximos do verbivocovisual anunciado, ainda em 1956, pelo manifesto concretista. Mas ninguém é adivinho! Uzanne deu o seu recado prospectivo com bom humor e grande atualidade.

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