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Poesia no campo de concentração

31/12/2014 06:00:37

Celan: marcado pelo holocausto.
Celan: marcado pelo holocausto.

Por Carlos Ávila

Paul Celan (1920/1970) é muito importante para a poesia do século 20, com sua linguagem cortante e fragmentária, que abriga, inclusive, vocábulos inventados (conta por aqui com as traduções pioneiras de Flávio Kothe e as mais recentes de Cláudia Cavalcanti); está entre os intelectuais que sofreram nas mãos dos algozes nazistas, na Segunda Guerra Mundial.

Filho de família judaica de língua alemã, o poeta nasceu em Czernowitz (Bukovina), mas estudou medicina em Tours, na França. Voltou depois para sua cidade natal, que se tornou soviética em 1940, onde estudou também romanística.

Já em 41 tropas alemãs e romenas ocuparam o local e os pais de Celan forma deportados para um campo de extermínio, no qual morreram. O poeta acabou igualmente internado num campo de concentração na Romênia, de onde fugiu. Terminada a guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor. Traduziu autores russos, entre eles, Tchekhov; mais tarde, em Paris, dedicou-se à literatura francesa (Valéry, Rimbaud, Michaux etc.). Casou, em 1952, com a artista plástica Gisèle Lestrange. Recebeu diversos e importantes prêmios literários. Deprimido, marcado como sobrevivente do holocausto, suicidou-se por afogamento no Rio Sena.

Celan é um dos símbolos da resistência à opressão antissemita, é um exemplo do ódio que os militares nazistas nutriam pela inteligência e pela arte moderna, considerada por eles “degenerada”. A poesia de Celan – refinada e hermética – sobreviveu à barbárie nazista e continua viva como uma das mais fortes e influentes do século 20. Segue abaixo um poema dele (em geral, seus textos são breves), em tradução de Flávio Kothe.

À NOITE, quando o pêndulo do amor oscila
entre sempre e nunca,
tua palavra toca as luas do coração
e teu tempestuoso olho
azul alça o céu à terra

De longe, do negrissonhado
bosque advém-nos o sopro,
e o perdido circula, grande como os esquemas do futuro.

O que agora sobe e desce
vale para o íntimo soterrado:
cego como o olhar que trocamos,
beija o tempo na boca.

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