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A musa de Murilo

02/01/2015 06:00:47

Saudade: musa e companheira de Murilo Mendes.
Saudade, na foto, entre Camus e Murilo Mendes.

Por Carlos Ávila

A maioria a conhece como a companheira de toda vida do poeta mineiro Murilo Mendes (1901/1975). Poucos sabem, porém, que Maria da Saudade Cortesão (1913/2010) foi também poeta e tradutora. Como poeta publicou seis livros; traduziu “Crime na catedral”, de Eliot (além de Shakespeare e Camus), e publicou muita coisa que ainda está dispersa por jornais e revistas portugueses, brasileiros e italianos.

Ah! As grandes companheiras/musas dos poetas: Lília Brik (de Maiakóvski); Nusch (de Paul Éluard); Elsa (de Aragon); Pagu (de Oswald de Andrade)…

Maria da Saudade morou em Paris e em Madrid; veio para o Brasil na década de 40 acompanhando seu pai, o historiador português Jaime Cortesão, então fugido da ditadura salazarista e da 2ª Guerra Mundial. Radicaram-se no Rio, onde Saudade conheceu e se casou com Murilo. Na década de 50 ela se mudou com ele para Roma, onde o poeta se fixou por toda a vida, num amplo e sofisticado apartamento/estúdio, na Via del Consolato. Manuel Bandeira, na sua “Saudação a Murilo Mendes” escreveu: “Saudemos Murilo/grande marido dessa encantadora/Maria da Saudade/portuguesa e brasileira/como seu nome/invenção de dois poetas”.

A poesia de Saudade foi reunida no volume “Pássaro do tempo”, editado pela Imprensa Nacional de Lisboa, em 2003, e inclui desde seu primeiro livro, “O dançado destino” (que belo título!), até “No tempo”, com seus últimos poemas. Trata-se de uma poesia refinada, com clareza e beleza verbais, nos seus melhores momentos atingindo o nível de uma Cecília Meireles, ou ainda da sua conterrânea (e amiga) Sophia de Mello Breyner.

Segundo a ensaísta e crítica literária italiana, Luciana Stegagno Picchio, no seu posfácio, “neste livro encontramos, sublimados, decantados, quase todos os elementos da primeira recolha, com mais mister e, diria eu, mais autolimitação e ironia. Ainda as flores são glicínias, ainda os anjos passam obliquamente, ainda há a mancha dum pássaro caído (…)”.

Os leitores brasileiros precisam conhecer melhor essa poesia; necessitamos, com urgência, por aqui, de uma edição reunindo a obra de Saudade. Segue abaixo um dos seus poemas, de seu primeiro livro, “O dançado destino”, publicado em 1955, e vencedor, três anos antes, do Prêmio Fábio Prado de Poesia, em São Paulo. Uma pequena amostra da qualidade lírica da poeta portuguesa, ainda a ser redescoberta e lida com atenção entre nós.

Solene e só é o lugar
E mudo. A pedra o pássaro,
Tudo intacto e constante
E tão certeiro tudo.

Este horizonte longo
Este denso vazio.
E no lento silêncio
A voz lenta do rio.

O céu rodando eterno,
A vida toda em vão…
Que musgo e que mistério
Me invade o coração.

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