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A essência segundo Eliot

07/01/2015 06:00:07

Eliot: “crítica de oficina”.
Eliot: “crítica de oficina”.

Por Carlos Ávila

Juntamente com o “ABC da literatura”, de Ezra Pound (traduzido no Brasil por Augusto de Campos e José Paulo Paes), os ensaios de T. S. Eliot (1888/1965) formam um poderoso conjunto crítico, desenvolvido na primeira metade do século 20, e ainda essencial para a compreensão do fenômeno poético. Trata-se de reflexões teóricas que se ancoram no próprio fazer do poeta, ou seja, na sua prática criativa.

Conhecidos como “crítica de oficina”, esses escritos de Pound e Eliot (que, no Brasil, tiveram em Mário Faustino um entusiasmado seguidor) influenciaram e abriram caminhos para a crítica literária – do chamado new criticism ao estruturalismo, chegando até os nossos dias. O precioso volume “A essência da poesia”, uma reunião de estudos e ensaios de Eliot (cuja primeira edição brasileira é de 1971, em tradução de Maria Luiza Nogueira), é uma obra básica; todos que lidam com poesia deveriam lê-la. Abaixo, seguem alguns toques de Eliot – observações precisas e sempre atuais.

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Nas sociedades mais evoluídas, como a antiga Grécia, a função social da poesia era reconhecida e evidente.

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As emoções e os pensamentos expressam-se melhor na língua comum do povo – ou seja, a língua comum a todas as classes; a estrutura, o ritmo, o som, o idioma de uma língua expressam a personalidade do povo que a fala.

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Um poema pode significar várias coisas diferentes para diferentes leitores, e todos esses significados podem ser diferentes daqueles que o autor pensou querer expressar.

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A ânsia pela novidade contínua na dicção e na métrica é tão doentia quanto à adesão obstinada à linguagem de nossos avós. Há épocas para exploração e épocas para o desenvolvimento do território conquistado.

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Nenhum verso é livre para o homem que quer fazer um bom trabalho.

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Ninguém tem tempo para ler tudo, e há poemas dos quais apenas alguns trechos continuam vivos.

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Há, naturalmente, poetas que escreveram apenas um, ou, apenas, uns pouquíssimos poemas muito bons, de modo que não parece haver razão para alguém ir além da antologia.

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Nenhuma reputação poética jamais permanece exatamente na mesma situação: é uma bolsa de valores em flutuação constante.

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