Blog CULTURA

A biblioteca de Bishop

09/01/2015 06:00:40

Bishop: amor à vida e aos livros.
Bishop: amor à vida e aos livros.

Por Carlos Ávila

O filme “Flores Raras”, de Bruno Barreto (com excelentes atuações de Glória Pires e Miranda Otto), trouxe de volta à mídia o nome da poeta norte-americana Elizabeth Bishop (1911/1967), cujo período de vida no Brasil foi marcante, incluindo uma relação amorosa com a arquiteta Lota de Macedo Soares (1910/1967) – uma das responsáveis pelo projeto do Parque do Flamengo, na época do governo de Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro (então Estado da Guanabara). Para nós, mineiros, o nome de Bishop tem um significado especial: ela morou em Ouro Preto, onde construiu uma bela casa – a “Casa Mariana”, uma homenagem à também poeta Marianne Moore, que foi uma espécie de mestra de Elizabeth.

A poesia de Bishop já conta com duas traduções no Brasil, a de Horácio Costa e a de Paulo Henriques Brito. “Conversas com Elizabeth Bishop”, organizado por George Monteiro e lançado pela Ed. Autêntica há mais tempo, reuniu entrevistas dadas pela poeta para jornais e revistas não só norte-americanos, como também ingleses e brasileiros. Entre o material destaca-se uma deliciosa “lembrança” da biblioteca de Bishop, escrita por Mildred J. Nash e publicada na “Massachusetts Review”, em 1983.

Mildred participou de uma “oficina de escrita” de Bishop (ela era a única aluna em Harvard que entregava o trabalho em dia) e tornou-se amiga da poeta. Esta solicitou a ajuda de Mildred para organizar a sua biblioteca num apartamento com vista para o porto de Boston. Mildred ressalta que “havia prateleiras duas vezes mais altas que Elizabeth cobrindo uma parede alta de cada cômodo de seu espaçoso apartamento”, com diversas seções como de viagens (aliás, com muitos livros sobre o Brasil), de romances, de filosofia, de culinária etc. Mildred relata que durante o trabalho feito pelas duas, Bishop fazia “desvios fascinantes” para contar histórias e casos vividos por ela.

Segundo Mildred, “os melhores livros do escritório de Elizabeth – dicionários, dicionários de rimas, George Herbert, uma edição anotada da Nursery Rhyme Book de Iona e Peter Opie (como desejei que eles precisassem ser limpos para que eu pudesse examinar esses títulos mais de perto) – estavam em uma estante circular cheia de prateleiras, ao lado direito de sua mesa”.

A parede do escritório de Bishop tinha basicamente, é óbvio, poesia; ela tinha também títulos em português, espanhol e francês; pilhas de periódicos e ainda fotografias (várias da companheira Lota).

A tarefa de Mildred foi terminada “depois de quatro longos dias”. Dá para imaginar o que ela curtiu, a sua “viagem” em meio aos livros de Bishop.

Comentários