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A Sherazade do rádio

14/01/2015 06:00:11

Maria Muniz: pioneira e inovadora no rádio.
Maria Muniz: pioneira e inovadora no rádio.

Por Carlos Ávila

Um pequeno livro, só agora, e por acaso, “caiu” em nossas mãos. Trata-se de uma edição do Instituto Cultural Cravo Albin, lançada em 2006: “Maria Muniz – a Sherazade do rádio”: breve biografia de uma pioneira do rádio no país; e mais ainda: de uma mulher apaixonada e corajosa, avançada para a sua época (quando o livro foi publicado, Maria havia completado 100 anos!). Os autores do volume são Ricardo Cravo Albin, Mayra Jucá e Luiz Antônio Aguiar.

Maria trabalhou durante mais de vinte anos na criação, produção e apresentação de programas radiofônicos. Nascida em 1905, no interior de São Paulo (Espírito Santo do Pinhal), Maria José Alves Leite – seu nome completo – foi, desde jovem, uma mulher diferente que não se adaptava aos padrões tradicionais da época. Com apenas 13 anos de idade já pilotava uma moto; mais adiante se formou professora, abandonou seu casamento e fugiu com os filhos para São Paulo, onde iniciou uma vida independente.

“A minha avó Mariquinha era muito careta. Fazia um dramalhão por qualquer coisa. Ela era muito carola também. Tudo para ela era pecado, era feio… Tudo moça não podia fazer. Já a mãe do meu pai, dona Emília, não era assim. Era filha de franceses (…). Sabia latim, francês… Quando alguém falava de mim perto dela, dizia: deixa a menina ser como ela é” – conta Maria, em depoimento no livro.

O famoso locutor Cesar Ladeira (1910/1969) abriu o caminho para a primeira experiência de Maria no rádio (como locutora de publicidade), ainda em São Paulo. Depois de passagens pelo sul do país (trabalhando como inspetora de ensino), ela conseguiu transferência para o Rio de Janeiro, onde o pioneiro Roquette Pinto (1884/1954) a levou para ler poemas no rádio; pouco tempo depois ela já estava escrevendo histórias e apresentando o programa “Teatrinho Infantil”, na rádio Tupi.

Entre os programas que Maria criou, produziu e apresentou destaca-se “Tesouros Imortais” (em parceria com Sérgio Vasconcelos e com o escritor Elói Pontes), na Rádio Jornal do Brasil. A pauta incluía literatura, dramaturgia, música e artes plásticas. O programa de estreia foi sobre o “Fausto”, de Goethe – imaginem! “A intenção era passar ao ouvinte a ideia de que os três conversavam livremente sobre o tema” – segundo os autores do livro – “inclusive opinando nos assuntos alheios e até interrompendo a fala dos colegas”. Embora o “tom” fosse informal, tudo era escrito previamente, aproximando-se da forma do radioteatro.

Além de criar e participar de atrações infantis e educativas, Maria – que passou por diversas emissoras cariocas – deixou sua marca no rádio com vários programas de crônicas femininas, com opiniões diretas sobre o comportamento ideal para a mulher moderna (uma espécie de “feminismo” avant la lettre). Dois outros programas concebidos e apresentados por Maria (na Rádio MEC) também se destacam: “Poesia necessária”, em que ela selecionava e apresentava grandes poetas nacionais e estrangeiros; e “Villa-Lobos: sua vida e sua obra” (este em parceria com Arminda Villa-Lobos, companheira do compositor).

A criatividade e o talento de Maria chegaram até os primórdios da TV, na Tupi do Rio, onde escreveu roteiros para teleteatro e apresentou o primeiro jornal feminino na telinha: “Telegazeta Feminina”, ainda em 1956. Foi a primeira mulher a atuar como âncora na TV brasileira.

Mas por que “Sherazade do rádio”? – deve estar se perguntando o leitor. A própria Maria esclarece no livro: “vem de um apelido que me foi dado pelo Manuel Bandeira. Mas, às vezes, me bate na lembrança que pode ter sido o Nelson Rodrigues… Eu contava histórias no rádio, e histórias que diziam que eram dignas de encantar um Sultão Shariar por mil e uma noites”.

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