Blog CULTURA

O navio do destino

16/01/2015 06:00:32

 

Serpa Pinto: a esperança de muitos durante a Segunda Guerra.
Serpa Pinto: a esperança de muitos durante a Segunda Guerra.

Por Carlos Ávila

Uns seguiam para a guerra, outros fugiam dela. Todos no luxuoso vapor português Serpa Pinto. Do Rio, na primavera de 1942, partiram no navio alemães que viviam no Brasil e queriam lutar por seu país e pelo Führer Adolf Hitler; de Lisboa partiram também, pouco tempo depois, na mesma embarcação, mais de 600 judeus, fugindo da perseguição nazista na Europa (“combalidos e sem posses, espremeram-se no navio” em direção a Nova York).

É essa história que a jornalista e pesquisadora belga Rosine De Dijn conta no seu livro-reportagem “O navio do destino” (traduzido e publicado no Brasil pela Ed. Record). Trata-se de uma curiosa e dramática narrativa das viagens empreendidas por um vapor de Portugal (país neutro na Segunda Guerra Mundial, mas cujo ditador Salazar tinha nítida tendência fascista) – tendo à frente da tripulação o heroico capitão Américo dos Santos.

Embasada no diário do capitão do navio e em exaustivas pesquisas em arquivos europeus, brasileiros e norte-americanos – além de depoimentos, memórias e cartas de sobreviventes – Rosine revive o período conturbado do início da 2ª Guerra, quando os alemães mantinham sua hegemonia no conflito. Apesar do excesso de informações e citações, tendendo para um texto mais “técnico”, o volume prende o leitor, com o tema bem explorado e esmiuçado pela autora.

Rosine faz do capitão Américo dos Santos e de algumas famílias alemãs que se radicaram no sul do Brasil (nos anos de inflação e crise econômica em seu país de origem) e judias que se deslocaram da Bélgica os protagonistas de seu livro. Relata a criação de colônias e partidos nazistas pelos novos imigrantes e a fuga de seus compatriotas judeus, de Bruxelas e de Antuérpia (cidade natal da autora).

Salazar “pretendia, em benefício próprio, manter-se amigo das facções adversárias na guerra, e fornecia produtos portugueses para ambos os lados”, explica Rosine. Em sintonia com isso, o Serpa Pinto cruzou o Atlântico em direções opostas, transportando nazistas e depois judeus. Foi o navio do destino e da esperança. No mesmo ano de 42, chegou a Lisboa com diplomatas alemães, italianos e romenos, além de famílias teuto-brasileiras que queriam lutar pelo Reich; na sequência, partiu da capital portuguesa com inúmeros judeus e outros fugitivos, entre eles a filósofa Simone Weil e o pintor dadaísta francês Marcel Duchamp, então com 54 anos (“a travessia do excêntrico artista na segunda classe do navio fora organizada por Varian Fry e financiada pelo Emergency Rescue Committee”).

O audaz Serpa Pinto não enfrentou apenas águas revoltas, mas também um Atlântico infestado por submarinos nazistas e outras embarcações de guerra, alemãs e aliadas. O vapor chegou a recolher náufragos de navios torpedeados e foi interceptado em algumas ocasiões. A mais tensa delas, em maio de 1944: um submarino nazista parou e quase pôs a pique o navio português.

Além de um bom caderno de fotos, “O navio do destino” traz no seu último capítulo (quase um anexo) um relato detalhado sobre o destino, depois de 42, dos protagonistas do livro. Pessoas que tiveram seu destino mudado para sempre pelo Serpa Pinto, que entrou para a história como “navio herói” ou ainda “navio da amizade”.

Comentários