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Bethânia canta Noel

21/01/2015 06:00:22

Por Carlos Ávila

Bethânia: intérprete contida e sensível de Noel.
Bethânia: intérprete contida e sensível de Noel.

Há exatos 50 anos atrás, ela começava sua carreira no espetáculo “Opinião”, interpretando com ênfase uma forte canção nordestina, a famosa “Carcará” (de João do Vale). Mas no final do mesmo ano (1965)  já estava no estúdio Gravodisc, em São Paulo, gravando um compacto: “Maria Bethânia canta Noel Rosa”. Era o outro lado da moeda: com voz contida, acompanhada apenas pelo violão de Carlos Castilho, Bethânia registrou num pequeno vinil da RCA Victor (hoje uma raridade discográfica) seis canções do “poeta da Vila”. A cantora baiana está comemorando seus 50 anos de carreira com o show “Abraçar e agradecer”, que estreou no último dia 10, no Rio.

“Seu canto é livre e puro,” – escreve o poeta Vinicius de Moraes, na contracapa do antigo disquinho – “mas não de uma pureza casta e desumana: é um encontro do céu com a terra, um casamento do mundo com o infinito. Nela o timbre crestado, com uma qualidade de juta, é um dos componentes mais humanos; mas seu canto se eleva mais alto, lírico, embriagado de espaço, cravejado de estrelas”.

Talvez esse seja um disco único na trajetória de Bethânia, despojado e despretensioso, mas bastante verdadeiro. Num depoimento, ainda da década de 60, ela afirmaria: “Eu canto Noel porque ele consegue dizer tudo o que eu quero (…). Quando eu gravo Noel – e o gravo em quase todos os meus discos – é porque sei que o que ele diz é sempre atual e vai sempre alcançar qualquer público”.

Cantando, no lado um, “Três apitos”, “Pra que mentir” e “Pierrot apaixonado”; e no lado dois “Meu barracão”, “Último desejo”e “Silêncio de um minuto” – obras-primas do grande Noel (a segunda em parceria com  Vadico, e a terceira com Heitor dos Prazeres) –, Bethânia surpreende em audição ainda hoje. Nessas interpretações “de câmara” (voz e violão), a cantora está mais próxima da bossa-nova do que dos cantores que gravaram Noel na época do rádio: Orlando Silva e Aracy de Almeida, por exemplo. Isso só confirma a qualidade e atualidade das canções do mestre de Vila Isabel (com harmonia cuidada e letras coloquiais) que se moldam bem a “releituras”.

Ao longo de uma carreira de muito sucesso, Bethânia se revelou uma intérprete algo dramática e “teatral”, incluindo também nos discos e shows leituras de poemas (Fernando Pessoa é um dos seus autores favoritos). Já nesse compacto de início de carreira encontramos uma cantora econômica no tratamento vocal – embora bastante pessoal e emocional – das excepcionais canções de Noel.

Como não ficar tocado com essa jovem Bethânia, nesse disco raro (salvo engano nosso, não lançado em CD), escandindo os belos versos de Noel? “Não te vejo e não te escuto/o meu samba está de luto/eu peço o silêncio de um minuto/homenagem à história/de um amor cheio de glória/que me pesa na memória…”. Ou ainda: “Perto de você me calo/tudo penso e nada falo/tenho medo de chorar/nunca mais quero o seu beijo/mas meu último desejo/você não pode negar…”.

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