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Mário: 70 anos de morte

28/01/2015 06:00:33

mario
Mário de Andrade: poeta e intelectual completo.

Por Carlos Ávila

“Quando eu morrer quero ficar,/não contem aos meus inimigos,/sepultado em minha cidade,/saudade”. Em 2015 completam-se 70 anos de morte de Mário de Andrade (1893/1945) – poeta, romancista, ensaísta, crítico; também homem de ideias e debates. Talvez o intelectual mais completo de nosso modernismo, com contribuições definitivas em várias áreas de criação e de pensamento.

Segundo Antônio Cândido, “ele criou livremente um ritmo novo, para si e para o Brasil, alternando a sua vida espiritual e a do seu país. Uma vez comprometido com a renovação, ninguém se aplicou mais meticulosamente em dar estilo à liberdade, em suscitar estouros e depois traçar comportas e canais. Para si e para os outros”.

O autor de “Macunaíma” será o homenageado deste ano da FLIP, em Paraty, que será realizada de 1º a 5 de julho; no ano que vem suas obras entram em domínio público. Em breve, será lançada a primeira biografia sobre o poeta paulista (“Eu sou trezentos – Mário de Andrade: Vida e Obra”, de Eduardo Jardim); boa notícia.

Mário foi o um dos formadores do que se entende por “cultura brasileira” (mesmo que hoje, num mundo globalizado, ninguém dê mais muita bola para isso); era um poeta-pensador, sempre em ação, a partir de seu escritório/observatório na Rua Lopes Chaves, em Sampa (a casa ainda existe e os jornais informam que será restaurada para abrigar uma exposição permanente sobre ele, além de outras atividades culturais).

Os três Andrades (que, aliás, não eram parentes): “Mário, Oswald, Carlos. A cultura, a revolução, a boa poesia” – na síntese perfeita de Mário Faustino. O país deve muito a eles. Quanto a Mário, particularmente, sua participação e engajamento na famosa “Semana de 22”; um clássico de nossa prosa, o antropofágico “Macunaíma”; uma obra poética extensa, com seus altos e baixos (mais altos!), com vários poemas antológicos; seus ensaios sobre literatura (textos sobre Machado, “O Ateneu”, Luis Aranha, a poesia em 1930 etc.) e sobre artes plásticas (o pioneiro estudo sobre o Aleijadinho, por exemplo); a sempre útil “Pequena História da Música” e outros trabalhos sobre o tema, como aquele em que analisa os compositores e a língua nacional; o anteprojeto do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (depois levado à prática por Rodrigo de Melo Franco); as inúmeras críticas, crônicas, cartas (às vezes, chatas e professorais) e até fotos…

Mário é um mundo. Mários. Vários em um: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta…” – como ele próprio se definiu em verso, no seu “Remate de Males”. O esteta pluri-interessado, o intelectual por excelência: erudição + humanismo (um tipo raríssimo nos dias de hoje, dominados por especialistas).

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