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O sábio Paulinho da Viola

04/02/2015 06:00:50

Por Carlos Ávila

Paulinho-da-Viola
Paulinho da Viola: 50 anos de carreira

“Quem sabe de tudo não fale/quem não sabe nada se cale/se for preciso eu repito/porque  hoje eu vou fazer/ao meu jeito eu vou fazer/um samba sobre o infinito…”. A poesia de Paulinho da Viola é límpida e lírica; e mais: simples como o som de um cavaquinho, de um pandeiro e de um tamborim.

“Em termos de letra” – observou certa vez o poeta/letrista Capinam – “acho que ele dá uma contribuição muito importante para o samba. É um excelente poeta, faz uma poesia muito clara, limpa, uma poesia de sentimento, mas antissentimental, não derramada, uma poesia com vigor, simples”.

Musicalmente, Paulinho vem do samba do morro, dos sambas de Cartola e Nelson Cavaquinho, entre outros. Trata-se de uma música simples, elementar até, mas rica nos detalhes (certas harmonias e formas diferenciadas de composição e execução). Mas enganam-se aqueles que pensam ser Paulinho um intuitivo; ele é um músico bem informado, que pesquisa, lê muito, gosta de artes plásticas; que acompanhou de perto e com raro entendimento as transformações trazidas pela Bossa Nova e, mais adiante, pelo Tropicalismo; que ouviu Villa-Lobos e outros clássicos (vide a sua sofisticada “Sinal Fechado”).  É também um profundo conhecedor do choro (seu pai, o violonista Cesar Faria, era um mestre do gênero – que se aproxima do jazz no aspecto da improvisação).

Segundo informação do “Globo”, no último sábado, Paulinho da Viola está completando 50 anos de carreira em 2015; as comemorações incluem o lançamento de um site sobre sua obra, uma caixa com 11 discos, além de mais um CD dedicado a gravações raras. No Carnaval que vem chegando, Paulinho deve sair como destaque da Portela, no último carro, “Trem do samba”.

Paulinho já foi tema de teses, estudos e livros que buscam o entendimento do lugar que ele e sua música ocupam na MPB: seu elo com a tradição (“a tradição mais viva”, na expressão poundiana), mas nunca com o tradicionalismo. “Sem preconceito/ou mania de passado/sem querer ficar do lado/de quem não quer navegar” – como ele assinala, sabiamente, no seu samba “Argumento”.

Entre os livros que abordam a obra de Paulinho destacam-se “Velhas histórias, memórias futuras”, de Eduardo Granja Coutinho, e “Paulinho da Viola”, da série Perfis do Rio, de João Máximo – ambos lançados em 2002. Em 2011 saiu o volume “Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos”, de Eliete Negreiros, com várias análises de composições. Além desses livros, há também o ótimo DVD “Meu tempo é hoje”, documentário dirigido por Isabel Jaguaribe.

Compositor que ao mesmo tempo preserva e renova o samba – e também o choro; violonista dedicado (que muitas vezes troca o violão pelo cavaquinho), com um estilo próprio; cantor de voz suave e serena, Paulinho da Viola é, na sua grandeza sem afetação, um genuíno sambista-pensador: “As coisas estão no mundo/só que eu preciso aprender”.

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