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Sofotulafai

06/02/2015 06:00:17

Abgar Renault: clássico e vanguardista
Abgar Renault: clássico e vanguardista

Por Carlos Ávila

O leitor deve estar se perguntando o que quer dizer essa palavra aí no título. Com toda razão. Ela é estranha e longa. “Sofotulafai” é o título de um livro-poema do poeta e tradutor Abgar Renault (1901/1995) – trata-se do nome de uma cidade da Ásia. Ou seja, desde o título o volume já se coloca sob o signo do estranhamento.

Segundo o colofão, o livro foi escrito nos dias 17, 18, 26 e 27 de agosto de 1951, mas só foi publicado em 1972, numa edição da Imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Dessa edição foram tirados, em papel Chambril, 40 ks., 400 exemplares, fora do comércio, assinados pelo autor. A bonita e elegante publicação (hoje, uma raridade bibliográfica) é toda ilustrada por criativos desenhos/grafismos concebidos pelo artista plástico Márcio Sampaio.

Identificado como um autor da geração modernista, Abgar Renault nunca se encaixou de fato nela. Foi um poeta que sempre manteve uma individualidade marcante e uma originalidade peculiar. Profundo conhecedor do idioma e da arte poética, Abgar foi um exímio sonetista, um raro artesão do verso e das formas fixas.

Em “Sofotulafai” surpreendeu a todos ao conceber um poema longo, que consegue unir tradição e experimentalismo, a um só tempo. Segundo Drummond, “Sofotulafai” é um “estranho, extraordinário poema de sabor clássico/vanguardista”. Abgar utiliza uma grafia antiga com letras dobradas e palavras sem acento (mysteriosas; nocturnas; colloquios etc.), mas incorpora elementos sonoros e visuais (chega até o caligrama, à maneira de Apollinaire), mistura o português com outras línguas (o francês e o inglês), funde e inventa vocábulos – enfim, torce e contorce as palavras. Aliás, estas são o leitmotiv do longo texto poético de Abgar.

Seu tema é a própria palavra, a vida e o mundo refletidos no objeto livro. Inclusive há até um diálogo entre livros, em meio a outros objetos numa biblioteca-escritório:

Conversam livros frívolos e sabios,

jorram sentenças de invisíveis labios:

– “Há quatros annos cheguei e adormeci;

não me tocou, jamais me tocará.

Para que fui comprado ainda não sei…”

– “Pois eu já fui aberto muitas vezes,

lido e relido, e sei que sou amado”.

Substantivos e verbos volteiam nas páginas, vogais e consoantes unem-se e separam-se no espaço branco do papel, dando forma a um poema babélico, uma “instalação” verbal entre capas onde “os homens vivem, morrem por signais;/tudo tem seu signal, ou raso ou fundo”.

Até que o mundo acabe e silencie, como proclamam os versos finais de Abgar neste provocante e criativo “Sofotulafai”, digno de ser reeditado, é claro, em fac-símile, com os tipos e imagens originais que o caracterizam como um livro único, extraordinário como observou Drummond.

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