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1922: Um ano do barulho

11/02/2015 06:00:32

 

Joyce: revolução no romance com "Ulisses"
Joyce: revolução no romance com “Ulisses”

Por Carlos Ávila

Para a literatura, e mesmo para as outras artes, o ano de 1922 foi de grande movimentação e criatividade; o ano começou, simplesmente, com a publicação de “Ulisses”, de Joyce, e terminou com o lançamento de “A terra devastada” (“The waste land”, no original), de Eliot. Em relação ao “Ulisses”, particularmente, o poeta e crítico norte-americano Ezra Pound – o grande promotor/incentivador dos dois autores – considerou que era o Ano Um de uma nova era; e chegou a datar suas cartas na época, provocativamente, com p. s. U. – post scriptum Ulixi. A verdade é que “Ulisses” revolucionou definitivamente a prosa mundial e “The waste land” toda a poesia; dois fortes marcos do modernismo literário no século 20.

Um livrão – com mais de 500 páginas e nenhuma ilustração! – conta em detalhes a história desse período riquíssimo. Trata-se de “Constelação de gênios – uma biografia do ano de 1922” de Kevin Jackson, recém-lançado pela Ed. Objetiva (em tradução de Camila Mello). Jackson é ensaísta e professor, com mais de vinte livros sobre diversos temas culturais e colaborações nos principais jornais e revistas americanos e ingleses; leciona no National Film Theatre, no Royal College of Art e no Victoria and Albert Museum; além disso, apresenta documentários para a Radio 3 e também dirige e produz filmes para a TV.

O livro de Jackson segue dia a dia, mês a mês, toda a movimentação cultural do ano de 1922; além disso, aborda também, aqui e ali, eventos sociais e políticos (por exemplo, a ascensão gradativa ao poder de Mussolini e Hitler, ou seja, do fascismo e do nazismo; ou ainda os problemas de saúde de Lênin e o crescimento de Stalin, na Rússia pós-revolução de 1917).

Mas se Joyce e Eliot são os protagonistas principais, tendo como elemento de ligação Pound, muita gente mais aparece neste vasto panorama cultural de 22: Proust, Cocteau, Fitzgerald, D. H. Lawrence, Katherine Mansfield, Hemingway, Hermann Hesse, Virginia Woolf, Yeats, Breton, Lorca, Maiakovski etc. Isso só para ficar na literatura. Há também assunto e espaço para os cineastas (Chaplin, Buster Keaton, Eisenstein, Hitchcock, Buñuel), os dramaturgos (O’Neill, Brecht), os músicos eruditos e de jazz (Stravinsky, Schönberg,Louis Armstrong), os artistas plásticos (Kandinsky, Picasso, Duchamp, Dali), os filósofos, os físicos, os psicanalistas, os políticos, gente de moda etc. O ano de 22 foi também “o ano do rádio”, transformado em meio mundial de comunicação.

Segundo Jackson, na verdade, os tempos modernos começaram um pouco antes, com a apresentação da peça “Ubu Roi”, de Jarry, em Paris (1896); com a publicação de “A interpretação dos sonhos” de Freud (1899); com Einstein e a sua teoria da relatividade (1907); com o quadro“Les demoiselles d’Avignon” de Picasso (1907); com “A sagração da primavera”, de Stravinsky (1913); com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914) e com Revolução Russa, em 1917.

Todas as artes sofreram o impacto desses acontecimentos; mas a literatura ainda demorou um pouco, até surgirem “um irlandês magricela e surrado e um americano garboso e silenciosamente sinistro”, no dizer de Jackson, que explodiram a ficção realista e a poesia lírico-linear. Na próxima coluna falamos nesses dois desbravadores/inventores de novos caminhos.

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