Blog CULTURA

Ainda sobre 1922

13/02/2015 06:00:31

Por Carlos Ávila

Virginia Woolf achou a leitura de “Ulisses” um martírio
Virginia Woolf achou a leitura de “Ulisses” um martírio

“Assim como Jarry, Eliot e Joyce produziram, deliberadamente, trabalhos obscenos que se deleitaram em sua própria (aparente) falta de sentido” – observa Kevin Jackson, o autor de “Constelação de gênios – uma biografia do ano de 1922”. E complementa: “Assim como Picasso, destruíram regras de representação que eram convencionais e governadas pela “perspectiva”, alongaram-se sobre aspectos impronunciáveis da sexualidade e se apaixonaram pela feiura e pelo primitivo. Assim como Stravinsky, cuspiram em seus predecessores imediatos e retrocederam séculos, ou até milênios, às raízes antropológicas da arte e da civilização”.

Na verdade, o campo já vinha sendo preparado pelo cubismo francês, pelos futurismos italiano e russo e pelo dadaísmo iniciado em Zurique. Voltando a Jackson, “1922 foi um ano de primeiras vezes, nascimentos e fundações memoráveis. Um velho mundo estava indo embora (…). No mundo das artes, o dadaísmo teve seu fim e Proust morreu”. Talvez Eliot e Joyce tenham sido, em suas obras (“The waste land” e “Ulisses”), os grandes codificadores dessas transformações culturais, aliadas a outras de caráter sociopolítico e econômico.

Essas duas obras, ressalta também Jackson, foram vistas “como expressões do sentido geral de desilusão e crise após o fim da Grande Guerra”; Eliot e Joyce “passaram da fé para a dúvida”. Mas não estiveram nas trincheiras. Eram combatentes da cultura, apoiados pelo incansável condottiere Ezra Pound – ele também um poeta inovador, cujo lema era make it new.

Mas a revolução de linguagem e visão de mundo de “The Waste Land” (“o poema mais assombroso da literatura moderna” para o crítico e ensaísta Otto Maria Carpeaux) e de “Ulisses” (“um monumento sem par na literatura contemporânea”, também segundo Carpeaux) teve recepção polêmica e mesmo críticos veementes, como se pode acompanhar nas páginas do livro de Jackson.

Joyce parece ter sido mais criticado (tendo seu livro, inclusive, censurado nos EUA) que Eliot. Embora “The waste land” seja fragmentário e recheado de citações/apropriações de versos em vários idiomas, a complexidade linguístico-narrativa de “Ulisses” é, com certeza, um desafio maior: o livro já “derrotou” muita gente que não conseguiu levar sua leitura até o final.

Curiosamente, uma das maiores detratoras de Joyce foi Virginia Woolf – uma escritora engenhosa e sofisticada (vide “Orlando”, por exemplo). Jackson cita diversos comentários negativos dela ao livro; numa carta de 3 de outubro, por exemplo, ela compara Proust e o irlandês: “Minha grande aventura é realmente Proust. Bem – o que resta a ser escrito depois dele? (…) O extremo oposto é “Ulisses”, ao qual me amarro como um mártir no tronco, e que graças a Deus acabei de ler – meu martírio acabou”.

Criticados ou elogiados, tanto Joyce, quanto Eliot estabeleceram novos parâmetros para a literatura moderna. E marcaram o criativo ano de 1922 – muito bem biografado por Jackson no seu livro. Mas e o Brasil nisso tudo? E a Semana de 22? Há um verbete sobre ela; Mário de Andrade, Di Cavalcanti e Villa-Lobos são os únicos citados. “Paulicéia Desvairada” é chamada de “The waste land” da literatura latino-americana (“é em alguns aspectos similar ao trabalho de Eliot”) e “Macunaíma” considerado o “Ulisses” da América Latina.

Comentários