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Contra a ditadura do metro

20/02/2015 06:00:09

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Pompéia: obra pioneira e criativa

Por Carlos Ávila

Raul Pompéia (1863/1895) é bastante conhecido por seu romance “O Ateneu” – um dos maiores de nossa literatura que o coloca, seguramente, ao lado de nomes como Machado de Assis, Mário e Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Obra marcante desse fluminense de Angra dos Reis – abolicionista e republicano, que se suicidou aos 32 anos numa noite de Natal – “O Ateneu” é criação de um estilista a la Flaubert, que se situa entre o realismo e o impressionismo. E que deu também outra dimensão ao seu texto, ao casá-lo com as ilustrações que ele mesmo concebeu (a sua obra semiótica, diria Décio Pignatari, seu admirador – que chamava atenção também para o ensaio do crítico Araripe Jr. (1848/1911) sobre o escritor).

“O Ateneu” trata de uma crua e dura experiência colegial no século 19 (foi publicado em 1888), que é um espelho-metáfora da sociedade da época, uma “selva” onde imperava a lei do mais forte e a força da grana.

“Raul Pompéia era artista, e artista cônscio do seu ofício de plasmador de signos”, observou Alfredo Bosi. É verdade. Poucos sabem que além da ficção, Pompéia dedicou-se ao desenho e à caricatura, e concebeu até capas de livros. Escreveu também crônicas, contos, novelas, ensaios e poemas em prosa. Sim, poemas em prosa como Baudelaire e Rimbaud: as “Canções sem metro” (reeditadas em 2013, pela Ed. Unicamp, com competente organização, introdução e notas de Gilberto Araújo).

Na verdade, o grande romance de Pompéia acabou encobrindo o restante de sua obra, inclusive as “Canções sem metro”, obra pioneira e criativa, iniciadora do poema em prosa no Brasil. “Vanguarda da literatura oitocentista” – afirma Araújo – “esse gênero marca a insurreição dos poetas contra a ditadura do metro”. Com influência direta dos franceses – Baudelaire e Rimbaud, particularmente – a trilha aberta por Pompéia (as “Canções” foram publicadas em periódicos desde 1883, mas lançadas em livro apenas em 1900) levou também o grande simbolista Cruz e Sousa a escrever em prosa poética, nos livros “Missal” (1893) e “Evocações” (1898). Mais adiante teríamos também as prosas interessantíssimas, pré-modernistas e algo cinematográficas, do baiano Pedro Kilkerry (recuperado e reestudado por Augusto de Campos) – entre outras realizações que chamam a atenção naquele período.

Também segundo Araújo, Pompéia “é pioneiro em desenvolver uma prática em que a multiplicidade equilibra forma e conteúdo e, não menos importante, é o primeiro brasileiro a estofar essa prática num sistemático arcabouço teórico, seja em artigos na imprensa ou na própria estrutura das obras”.

A reedição de “Canções sem metro” (não devidamente resenhada e divulgada, à época de seu lançamento, em 2013) é, com certeza, da maior importância para nossa literatura. Que tal curtir os ritmos, sons e cores dessas “Canções” verbais, com Debussy ao fundo?

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