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Cinema do som

25/02/2015 06:00:39

Mendes: “ouço uma música como quem vê um filme”.
Mendes: “ouço uma música como quem vê um filme”.

Por Carlos Ávila

“Então, não vai ser mais possível um novo Beethoven, um Bach, um Brahms? Um novo Stravinsky, um Villa-Lobos? Muito se fala, hoje em dia, sobre o fim da música erudita, nome sem dúvida meio pretensioso, esquisito, apesar de inventado pelo grande Mário de Andrade. Mas também se fala em fim da história, dos tempos, do romance, de tudo, enfim. É a moda”.

Palavras do compositor Gilberto Mendes no texto inicial do seu saboroso “Música, cinema do som” (reunião de seus escritos na imprensa – de 1966 a 2001) lançado no ano passado pela Ed. Perspectiva, na sua excelente coleção Signos-Música. Músico, pesquisador e ensaísta, Gilberto – já na casa dos 90 anos! – segue na direção contrária à de seu comentário. Sempre batalhou pela música dita erudita – aquela que eleva o repertório e expande o universo sonoro – apesar de todos os obstáculos por aqui. Coordena, há muitas décadas, o Festival Música Nova, em Santos e em Sampa; compõe e “pensa” a música; viajou muito e suas peças foram executadas e gravadas em várias partes do mundo.

“A música de alto repertório” – segundo Décio Pignatari – “é a mais sofrida das artes, neste país, onde qualquer roqueiro pélvico ou cantora gatanhuda ganha mais e tem mais tempo e espaço nas mídias do que um oboísta, que precisa estudar oito anos para ser minimamente competente”.

Mas voltemos ao livro de Gilberto. O título deixa claro seu amor pela sétima arte. Ela é tema recorrente em meio aos textos reunidos que falam, quase sempre, de compositores eruditos do século 20 (Penderecki, Xenákis, Stockhausen, Stravinsky etc.), ou até mesmo, aqui e ali, de “melodias da Broadway”, do velho jazz (especialmente o das big bands norte-americanas), de Noel Rosa, da bossa-nova e do rock and roll, sem preconceitos. No final do volume são reproduzidas partituras de três composições de Gilberto.

O cinema – particularmente o hollywoodiano dos anos 30, 40 e 50 – está na alma de Gilberto, fez parte de sua formação cultural, incluindo, obviamente, as “músicas de fundo”. Com uma memória prodigiosa, Gilberto relembra e comenta inúmeros compositores e suas trilhas para filmes marcantes. Vai, por exemplo, de Franz Waxman (em “Janela Indiscreta” de Hitchcock) a Nino Rota (em “A Doce Vida”, de Fellini). “Vejo um filme como quem ouve uma música. Ouço uma música como quem vê um filme” – afirma Gilberto. E destaca o gosto musical de Godard, Bergman, Kubrick e Woody Allen; o uso expressivo (e exato) do som nas suas fitas.

Importa a Gilberto, antes de tudo, “a força da beleza musical num filme” (título, aliás, de um dos seus textos), o isomorfismo de som e imagem, o encaixe sensível e funcional do elemento visual ao auditivo, e vice-versa. Ele critica “as poucas participações realmente relevantes de nossa música erudita no cinema brasileiro”.

Gilberto menciona, entre as exceções, a trilha de Guerra Peixe para o filme “O Canto do Mar” de Alberto Cavalcanti; a utilização de Villa-Lobos e Marlos Nobre por Glauber Rocha; a música de Rogério Duprat nos filmes de Walter Hugo Khouri; a de Almeida Prado em “Doramundo” do cineasta João Batista Andrade…

E pergunta, provocativamente (depois de citar o uso de Mozart por Schlesinger e por Agnès Jaoui – além desta ter colocado também Monteverdi e Schubert num filme seu): “Quando o cineasta brasileiro vai ter essa finesse, esta abertura estética, libertar-se de sua fixação só pela MPB”?

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