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Orlando Silva: único e inimitável

11/03/2015 06:00:21

Orlando Silva: belo timbre e extensão vocal.
Orlando Silva: belo timbre e extensão vocal.

Por Carlos Ávila

“Lábios que eu beijei/mãos que eu afaguei/numa noite de luar assim/o mar na solidão bramia/e o vento a soluçar pedia/que fosses sincera para mim…”. Imaginem Orlando Silva (1915/1978), com sua bela voz, gravando no estúdio da RCA Victor, pela primeira vez – em 15 de março de 1937 – a valsa de J. Cascata e Leonel Azevedo, com acompanhamento da Orquestra Victor Brasileira (piano, clarineta, flauta, dois violinos, violoncelo, contrabaixo e bateria), num arranjo de Radamés Gnatalli. Bons tempos…

“Lábios que beijei” se tornou um dos maiores sucessos na voz do “cantor das multidões” (assim o apelidou o locutor César Ladeira) – canção reconhecida pelos críticos como uma das mais bonitas dos anos 30, período forte do rádio. Hoje, ninguém mais conhece os autores da canção; quem sabe até mesmo Orlando Silva… Infelizmente, faz parte da desmemória e da pouca educação (inclusive musical) no país.

Em 2015 comemoram-se 100 anos de nascimento de Orlando. O cantor nasceu em 1915, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro; de origem humilde, aos três anos de idade perdeu o pai; a partir dos 12 teve que se virar para sobreviver: foi entregador de telegramas, operário de fábrica de cerâmica, sapateiro, vendedor de roupas e tecidos e até trocador de ônibus. Aos 16 anos caiu do bonde e a roda passou sobre seu pé esquerdo; perdeu dedos, custou a se recuperar e ficou com sequelas. Mas continuava a cantarolar entre os amigos e a peregrinar pelas emissoras em busca de uma chance (era fã e ouvinte de Francisco Alves e Silvio Caldas).

O compositor Bororó, impressionado com a voz de Orlando, conseguiu que Chico Alves o ouvisse; este o levou para o seu programa na Rádio Cajuti (foi sua estreia em 1934). Logo vieram os discos, em diversas gravadoras, e a ascensão até o sucesso total. Com “Lábios que beijei” – segundo o estudioso Abel Cardoso Junior – atingiu o apogeu, “com apenas 21 anos de idade!”.

Cantor de voz forte e suave a um só tempo – algo operística – Orlando Silva marcou época com suas magistrais interpretações. Ouçam-se, por exemplo, suas gravações de “Carinhoso” (o clássico de Pixinguinha e João de Barro – talvez a mais marcante canção popular brasileira); “Rosa” e “Página de Dor” (ambas também de Pixinguinha). Outras duas “pérolas”, dignas de serem reouvidas: “Juramento Falso” (J. Cascata e Leonel Azevedo) e o belíssimo samba “Meu romance” (só de Cascata): “Embaixo daquela jaqueira/que fica lá no alto majestosa/de onde se avista a turma da Mangueira/quando se engalana com suas pastoras formosas…”.

Outros clássicos inesquecíveis na voz de Orlando: “Dama do cabaré”, de Noel Rosa; “Nada além” e “Enquanto houver saudade”, de Custódio Mesquita; e a patética “Brasa” de Lupicínio Rodrigues.

Mas há muito mais, principalmente na sua “fase de ouro”, inicial, na RCA Victor – segundo a abalizada opinião do crítico José Lino Grünewald, que era grande conhecedor das gravações de Orlando; ouvia-o em vinis originais (78 rotações) de sua preciosa coleção. Hoje, graças aos céus, temos várias dessas gravações preservadas e reproduzidas em CDs do selo Revivendo.

João Gilberto considera Orlando Silva “o maior cantor brasileiro de todos os tempos”. É preciso dizer mais?

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