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Gramática política

13/03/2015 06:00:02

Heissenbüttel: experimentalismo e crítica política.
Heissenbüttel: experimentalismo e crítica política.

Por Carlos Ávila

E segue a crise no “Bananão” – Ivan Lessa dixit – vulgo Brasil (um país tropical, abandonado por Deus e corrupto por natureza?). O chamado Petrolão – ou escândalo da PTbrás –, que originou a operação Lava-Jato, vai ficando cada vez mais complexo, qual um novelo (ou novela) sem fim, com delações e depoimentos dos envolvidos.

Depois da divulgação da tal lista de investigados no Supremo Tribunal Federal (na qual, aliás, o PP é o “campeão” disparado, com maior número de nomes citados, seguido por PT e PMDB) incluindo, inacreditavelmente, os atuais presidentes da Câmara e do Senado, o caldo entornou. Os citados, é óbvio, negam tudo; falam em perseguição, denúncias sem provas e infâmias. “Pelo menos ouve uma renovação na roubalheira: o Sarney e o Maluf não estão na lista” – diz o hilário José Simão. Mas o indefectível Collor está lá!

O país atravessa uma grave crise institucional, com repercussões políticas de resultado imprevisível. Governo e oposição se digladiam. Entre vivas e vaias, parolagens e panelaços, “eleitores de esquerda e de direita correm o risco de se ver traídos” – como observou certeiramente o jornalista Marcelo Coelho – “seja por um petismo desfigurado e patético, seja por um peessedebismo moderado demais para o gosto da freguesia”.

Toda essa situação nos trouxe à lembrança um poema de vanguarda, dos anos 1960, do alemão Helmut Heissenbüttel (1921/1996) – influenciado, sem dúvida, pela técnica reiterativa de Gertrude Stein – que foi traduzido entre nós por Haroldo de Campos: “Gramática política”.

Segundo Campos, “nos textos de Heissenbüttel reponta uma temática-do- ser de aura kafkiana, impregnada da filosofia da linguagem de Wittgenstein, que joga com os equívocos e os contrassensos da estrutura discursiva das línguas ocidentais”.

Experimental e ideológico, a um só tempo, o poema de Heissenbüttel, ainda segundo Campos, radicaliza uma linha já existente na última fase da obra poética de Brecht que inclui a “manipulação dialética da estrutura frásica” e ainda a “elíptica rarefação dos poemas”. O texto (reproduzido abaixo na tradução de Campos, direta do alemão) cai como uma luva neste momento crítico que o país, o Planalto e seus políticos atravessam.

Gramática política

Perseguidores perseguem os perseguidos. De perseguidos surgem perseguidores. Porque perseguidores perseguem perseguidos fizeram os perseguidores dos perseguidos perseguidos. Porque perseguidos tornam-se perseguidores (porque os perseguidores começaram a perseguir) surgem de perseguidos perseguidos que perseguem e de perseguidores perseguidores perseguidos. Mas porque perseguidos que perseguem perseguem perseguidores perseguidos; perseguidores perseguidos tornam-se afinal de novo perseguidores. Perseguidores perseguidos perseguintes. Afinal de perseguidos que perseguem tornam-se de novo perseguidos. Perseguidos perseguintes perseguidos. Perseguidores fazem perseguidos. Perseguidores fazem perseguidos que perseguem. Perseguidos perseguindo fazem perseguidores perseguidos. Perseguidos perseguindo fazem perseguidores perseguidos perseguintes. Fazem perseguidores perseguidos perseguintes: perseguidos perseguidos perseguindo. Etc.

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