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Em meio ao nevoeiro

18/03/2015 06:00:28

A internet “aceita tudo” e faz uma grande mistura sígnica.
A internet “aceita tudo” e faz uma grande mistura sígnica.

Por Carlos Ávila

“Sem preconceito ou mania de passado/sem querer ficar do lado/de quem não quer navegar/faça como um velho marinheiro/que durante o nevoeiro/leva o barco devagar” – assim canta (e ensina), com sabedoria e serenidade, o nosso Paulinho da Viola.

De fato, é preciso andar devagar, melhor, andar com cuidado, quando o nevoeiro é intenso, como agora na produção artística em geral, e, particularmente, na poesia. O trânsito e a transação entre meios e linguagens provocam atritos e nem sempre chegam a resultados interessantes e criativos. Afora isso, a internet “aceita tudo” e há uma grande promiscuidade sígnica.

No caso específico da poesia, constata-se hoje uma produção diversificada e irregular, com seus altos e baixos, que se confunde com o mero entretenimento e com a produção cultural mais mercadológica e descartável. Para além do experimental (elemento básico da poesia contemporânea, desde a era modernista), o que se produz atualmente oscila, muitas vezes, entre o facilitário e a repetição (epígonos e covers), entre o pseudo-sério e o acadêmico.

No último capítulo do seu livro “A verdade da poesia”, Michael Hamburger detecta dois “perigos” para a lírica atual: “a comercialização da poesia na indústria do entretenimento” e “a sua rarefação nos laboratórios da linguagem”.

Sem preconceito ou mania de passado, é necessário ser aberto sem ser eclético (cair no “vale tudo”). Não abandonar a pesquisa e o experimental, mas procurar utilizar as conquistas e avanços da linguagem de forma a não encerrar a poesia num espaço ainda mais exíguo, onde apenas “especialistas” ou os próprios poetas consigam transitar. Ou seja, não abolir totalmente as diversas “pontes comunicacionais”, nos seus vários níveis e padrões – já que toda arte (inclusive a poética) aspira, de alguma forma, à recepção, mesmo que seja das chamadas “minorias de massa” ou dos pequenos “auditórios”. Aliás, no caso específico da poesia, a coisa sempre funcionou mais ou menos nessa sintonia.

Voltando a Hamburger, “não temos uma boa razão para depreciar as inovações autênticas e necessárias da era modernista” (muitas delas, por incrível que pareça, ainda a serem decodificadas e absorvidas), mas é necessário estar atento para a diluição e para o jogo fácil. Navegar é preciso, sempre! Mas com consciência histórica e estética.

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