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Construtivistas

20/03/2015 06:00:31

Cordeiro: um artista inquieto e ousado
Cordeiro: um artista inquieto e ousado

Por Carlos Ávila

Duas mostras recentes, no Rio (uma de Waldemar Cordeiro, no Paço Imperial, e outra de Osmar Dillon, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica), e um seminário em Cambridge, na Inglaterra (sobre poesia concreta internacional), noticiados e comentados pelos maiores jornais brasileiros, trazem de volta a arte construtiva dos anos 1950/60 (plástica e poética). Afora isso, há também o lançamento de dois volumes, pela Ed. Cosac Naify, reunindo os ensaios do grande crítico Mário Pedrosa (1900/1981) – o principal teórico brasileiro desse período.

Waldemar Cordeiro (1925/1973) hoje está injustamente esquecido. Além de pintor (fundador do grupo Ruptura e líder dos artistas concretos de São Paulo), foi também escultor, designer, paisagista e um dos pioneiros da computer art no Brasil (ao lado do também muito pouco lembrado Erthos Albino de Souza – este na poesia). Já Osmar Dillon (1930/2013), igualmente esquecido, foi arquiteto, poeta e artista visual; participou do grupo neoconcreto carioca, mas seus trabalhos tiveram pouca divulgação e repercussão perto de outros criadores do mesmo grupo, como Amilcar de Castro, Lígia Clark e Hélio Oiticica.

Cordeiro, engajado e polêmico (foi ligado ao Partidão e preocupado com a “função” social da arte), era um defensor da arte racional (com base na teoria da Gestalt e na experiência da Bauhaus) – de projetos objetivos e inovadores. Foi do óleo sobre tela até a imagem gerada via computador – passando pelo objeto e pelos popcretos; sua morte precoce interrompeu uma trajetória de ousadia e experimentalismo.

Curiosamente, essa recente mostra de Cordeiro ensejou um mea-culpa do poeta e crítico Ferreira Gullar (antigo dissidente do concretismo e teórico do neoconcretismo), na sua coluna na “Folha” (15/2): “fui injusto com ele todas as vezes em que me referi à sua atuação como artista plástico”; “ao contrário do que eu pensava, foi um artista inquieto e experimentalista”.

Já Dillon, de atuação mais circunscrita e modesta, criou poemas-objeto onde o lírico une-se ao lúdico, por meio da projeção e fragmentação visual de letras e palavras. Fez também desenhos/projetos, numa série intitulada “Estudo para um monumento vivencial”, que “dialogam com o horizonte e a arquitetura de Brasília” – segundo Izabela Pucu, diretora do Centro HO e uma das curadoras da mostra sobre Dillon.

Há pouca coisa sobre esses dois artistas aqui lembrados. Sobre Cordeiro há um excelente livro-catálogo, “Waldemar Cordeiro – uma aventura da razão”, fruto de uma exposição realizada em 1986 no Museu de Arte Contemporânea – MAC, da USP, com supervisão e coordenação geral de Aracy Amaral. O volume traz textos de Pierre Restany, Décio Pignatari e Ana Maria Belluzzo, além de muitas reproduções dos trabalhos de Cordeiro, em suas diversas fases; também seus escritos teóricos, cronologia e bibliografia (há também um livro mais recente publicado pela Cosac Naify, numa série sobre a arte concreta paulista). Sobre Dillon, além de citações e/ou reproduções de seus trabalhos aqui e ali, em estudos sobre o neoconcretismo, não há mais nada, salvo engano nosso.

A já citada Aracy Amaral – competente estudiosa das artes no Brasil (vide seu livro fundamental sobre Tarsila do Amaral) – coordenou e organizou um volume intitulado justamente “Projeto construtivo brasileiro na arte”, lançado em 1977, com documentos, manifestos, textos de época e muitas imagens de trabalhos dos nossos construtivistas. Não seria o momento de reeditar esse importante trabalho?

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