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Parker – pássaro de fogo

25/03/2015 06:00:53

Bird: voando em solos jazzísticos.
Bird: voando em solos jazzísticos.

Por Carlos Ávila

“Em 1939 Parker chegou a Nova York sem dinheiro e sem trompete. Então, como depois, todo o seu dinheiro ia para os traficantes de narcóticos, de modo que, ganhasse o que ganhasse, raramente se vestia bem ou morava em casa condigna. Lavou pratos durante alguns meses até conseguir comprar um saxofone”. Esta era a situação de Charlie Parker – segundo a historiadora de jazz Lillian Erlich – na sua chegada à Big Apple, com apenas 19 anos de idade (era viciado em drogas desde os quinze!).

Bird – apelido que ganhou no exército – nasceu em Kansas City, em 1920; começou a tocar numa banda escolar. Com quase nenhuma instrução, foi, na verdade, um músico autodidata, que aos onze anos já tinha em mãos um sax-contralto. Tocou em várias bandas da cidade até se deslocar para NY onde se uniu a Dizzy Gillespie na criação do bebop, nos anos 40base do jazz moderno. Passou como um cometa pela música negra norte-americana, mas a renovou profundamente. Morreu com apenas 34 anos, em 1955: crises emocionais, tentativas de suicídio, drogas (álcool/heroína) e doenças marcaram sua curta vida. Em 2015 completam-se 60 anos de sua morte.

Este texto está sendo escrito ao som do CD “The essencial Charlie Parker” (selo Verve), uma coletânea que reúne algumas das maiores composições (“Now’s the time” e “Confirmation”) e interpretações (“Just Friends”, “Lover Man”, “April in Paris” etc.) desse gênio do sax, de estilo próprio e único. Seu “sopro” visceral influenciou muita gente depois dele; era um improvisador nato, sem limites na sua criatividade.

Outro maravilhoso CD de Bird que este colunista curte muito é “Charlie Parker with strings – the master takes” (também do selo Verve); o grande músico acompanhado por “cordas”, mas sempre com a presença de craques do jazz como, por exemplo, Ray Brown, no contrabaixo, e Buddy Rich, na bateria. Gravações selecionadas de 1947 até 1952 (sua fase final); muitas de clássicos de Cole Porter e Gershwin (incluindo a famosíssima “Summertime”). Esses dois CDs são uma boa introdução ao universo sonoro do jazzista.

Parker foi, sem dúvida, um dos maiores saxofonistas do jazz; “lia rapidamente e era um compositor e arranjador muito dotado. Outros músicos aceitaram imediatamente seu talento e autoridade” – destaca Erlich também. Bird era cultuado pelos beats; e serviu de inspiração para um conto de Cortázar (“El perseguidor”).

Afora sua “natural” musicalidade, Parker era muito bem informado e inclusive bebeu na música erudita: “Primeiro ouvi a “Suíte do Pássaro de Fogo” de Stravinsky. Em linguagem de rua, ele não estava na minha. Acho que Bartók tornou-se meu preferido. Curti todos os modernos, e os clássicos também, como Bach, Beethoven etc.”.

“O jazz é uma fraternidade completamente diferente,” – observou o compositor da suíte “O Pássaro de Fogo” – “um modo de fazer música inteiramente especial”. E ainda: “A improvisação tem o seu mundo próprio, necessariamente solto e amplo”.

O grande Parker – Bird: pássaro de fogo do jazz; suas plumas sonoras continuam soltas no ar.

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