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A morte sem mestre

27/03/2015 06:00:57

Helder: a morte sem mestre ou metro.
Helder: a morte sem mestre ou metro.

Por Carlos Ávila

Há alguma preparação possível para a morte? Ou, pelo menos, uma preparação poética? Manuel Bandeira, em um dos seus mais conhecidos poemas (“Consoada”), fala na chegada da morte – “a indesejada das gentes” (no livro “Opus 10”, publicado em 1952). Mais adiante, no volume “Estrela da Tarde”, de 1963, o poeta organizou uma pequena seção justamente intitulada “Preparação para a morte”, com quatro poemas cuja temática é a morte – “o fim de todos os milagres”.

“A morte sem mestre” (Porto Editora, 2014), último livro do poeta português Herberto Helder, falecido segunda-feira em Cascais, na região de Lisboa, aos 84 anos, não é uma “preparação para a morte” à maneira de Bandeira; é um enfrentamento da morte inevitável por meio do seu verso-prosa. Trata-se de um canto/desencanto de despedida daquele que era considerado o maior nome da poesia portuguesa na segunda metade do século 20. Pouco conhecido e lido no Brasil, Helder teve apenas três de seus livros publicados por aqui: “O corpo o luxo a obra”, “Os passos em volta” (uma inquietante e “enlouquecida” série de contos) e “Ou o poema contínuo”.

Nascido em Funchal, na Ilha da Madeira, em 1930, Helder adotou ao longo de sua vida um comportamento recluso: não gostava de ser fotografado, nem de dar entrevistas; em 1994, recusou o Prêmio Pessoa, um dos mais importantes prêmios literários de Portugal (“Não digam a ninguém e deem o prêmio a outro”, pediu ao júri).

“O dia, a noite, o inferno, o inverno,/sem números para contar os dedos muito abertos/cortados das pontas dos braços,/sem sangue à vista:/só uma onda, só uma espuma entre os pés e cabeça,/para sequer um jogo ou uma razão,/oh bela morte num dia seguro em qualquer parte/de gente em volta atenta à espera de nada,/um nó de sangue na garganta,/um nó apenas duro” – torrencia o poeta no seu canto final, em versos livres e transbordantes.

“A morte sem mestre” traz 28 poemas sem título (e um CD com o poeta oralizando cinco deles); são textos viscerais e muitas vezes violentos, com um ritmo de tirar o fôlego do “bom leitor impuro”. Imagens fortes de matiz surrealista, mas também cruas e diretas, espalham-se nesse discurso poético indignado diante da morte. “Os poemas de Herberto Helder têm características de macro-imagens que nunca param de crescer por sucessivas combinações e por constante introdução de novos elementos simples no complexo combinatório” – segundo observação precisa do poeta e ensaísta português E. M. de Melo e Castro.

Com certeza, poesia de poeta poente (para evocar aqui o título do também cáustico livro final do poeta mineiro Affonso Ávila), que tem como mote a sua própria morte: “Não nunca jamais ninguém deu por nada/ – a essa pouca mão, a esse pouco de escrita/insensata, sensível, canhota,/se calhar, que sei eu?, devo a vida/e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,/não para fortuna do mundo,/mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,/embora possa haver quem o não creia ou não queira,/então, para acabar, agradeço como acabo:/estupor velho e relho,/um bom sacana”.

Helder enfrenta verbalmente, com dessasombro, seu limite biológico – a morte sem mestre (e também sem metro, sem contenção): “e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo/menos sem grandes achaques físicos, o todo vosso/burro com palha pouca e fora de uso”.

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