Blog CULTURA

Bessie – Cantando as tristezas

03/07/2015 12:37:31

Bessie Smith
Bessie Smith: a rainha do blues.

Por Carlos Ávila

Segundo o grande saxofonista Charlie Parker, o blues é a base do jazz, ou seja, o seu “núcleo”; “o blues é tanto um estado de espírito quanto um sentimento” e também uma forma musical ou linguagem, na definição do historiador Eric Hobsbawn, autor da fundamental “História social do jazz” – livro de leitura obrigatória para curtidores de jazz.

O blues (baseado na repetição de doze compassos, na sua forma clássica) é, em geral, lento e triste; low down (“pra baixo”): “Low down é uma qualidade tão difícil de ser definida quanto ‘lírica’, mas poderá ser reconhecida por qualquer pessoa que tenha ouvido uma gravação de Bessie Smith” – assegura também Hobsbawn.

Bessie (1894/1937) – conhecida como rainha ou imperatriz do blues – foi considerada a maior cantora do gênero; era uma negra de rosto redondo, que veio da favela e da pobreza. Tinha um metro e setenta e cinco de altura e uma voz potente: “um contralto rico de força aparentemente sem limites”, na visão da estudiosa de jazz Lilian Erlich. “Dominava o palco”, segundo os que a viram cantar ao vivo, como um antigo guitarrista citado por Hobsbawn.

O auge da carreira de Bessie se deu entre 1923 e 1927; seus discos, gravados com alguns dos maiores músicos de jazz (Armstrong e Coleman Hawkins, entre outros), atingiam grandes vendas e ela recebia uma fortuna para a época – dinheiro que “torrava” à vontade, inclusive sustentando malandros que viviam à sua volta. “Era uma mulher grande, bela, rouca, bêbada e infinitamente triste”, sintetizou Hobsbwan.

Bessie cantava as tristezas suas e de outros; o blues é lamento, saído dos guetos negros no sul dos Estados Unidos – o blues se arrasta com langor da garganta de Bessie até os nossos ouvidos (suas interpretações impressionam até hoje): “Nunca ouvi nada semelhante à tortura e ao tormento que ela imprimia à música do seu povo”, afirmou Frank Walker que a descobriu e levou para a Columbia Record Company.

Com a Grande Depressão nos EUA a carreira de Bessie decai; depressão social/depressão pessoal: a cantora volta ao teatro mambembe e trabalha até como criada uniformizada para sobreviver (sua última gravação foi realizada em 1933, mas não “aconteceu”; seu mercado simplesmente desapareceu). Em 1937 acidentou-se com o seu carro, batendo num caminhão, e ficou gravemente ferida. Segundo um boato, Bessie não pôde ser atendida no hospital mais próximo (só para brancos!) e teria morrido a caminho de um hospital para negros.

Bessie “ficou sozinha a vida toda” – segundo Hobsbawn – “e cantou a transitoriedade do dinheiro, dos amigos, da bebida e dos homens, com a amargura desconfiada das pessoas que sabem que não se pode confiar em ninguém, o melhor é ficar só”.

Comentários