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Revendo McLuhan

22/07/2015 11:50:56

McLuhan: à frente de seu tempo.
McLuhan: à frente de seu tempo.

Por Carlos Ávila

Quando Marshall McLuhan (1911/1980) foi introduzido no Brasil, no final dos anos 1960, a universidade chiou. O criativo, inquieto e provocador poeta/ensaísta Décio Pignatari (1927/2012) foi seu primeiro tradutor por aqui; verteu do original em inglês (mais de 400 páginas!) o essencial “Understanding Media – the extensions of man”.

Os esquerdofrênicos viam em McLuhan conservadorismo político; Pignatari rebatia: “o que o pessoal odeia ver no McLuhan é que ele transpôs para o veículo (medium) a visão mallarmaica. É isto que o pessoal detesta. E esta visão é estrutural, não tem nada a ver com ideologia, que de resto é a visão de Marx”.

A ignorância e a má vontade política (estávamos em plena ditadura!) eram tamanhas que muitos desconheciam que McLuhan era canadense (e não norte-americano) e que vinha da área de letras (professor de literatura inglesa no seu país); tornou-se um “filósofo da era eletrônica”. O que aconteceu depois deu razão a McLuhan e suas formulações teóricas: sua ideia de “aldeia global” está viva na internet – não há como negar.

Na sequência, outros livros de McLuhan foram traduzidos no país: “O meio são as Massa-gens” (uma espécie de “Understanding Media” sintetizado e ilustrado pelo grande designer Quentin Fiore); “A galáxia de Gutenberg” e “O espaço na poesia e na pintura – através do ponto de fuga”.

O canadense lançou uma série de conceitos (“aldeia global”; “o meio é a mensagem” etc.) e abriu novos caminhos de análise e visão do mundo, das pessoas e dos objetos que nos rodeiam: “Todos os meios agem sobre nós de modo total. Eles são tão penetrantes que suas consequências pessoais, políticas, econômicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais não deixam qualquer fração de nós mesmos inatingida, intocada e inalterada”.

Para McLuhan os meios são prolongamentos de alguma faculdade humana: “a roda é um prolongamento do pé”; “o livro é um prolongamento do olho”; “a roupa é um prolongamento da pele” e “os circuitos elétricos, um prolongamento do sistema nervoso central”.

O pensamento de McLuhan tinha vínculos com as vanguardas (daí as suas citações de Carroll, Cage, Joyce etc.) e as artes de massa: cinema, música pop (Dylan, Beatles), TV, quadrinhos – também com as experiências científicas de ponta (a física de Oppenheimer, por ex.). O teórico faz uma divertida aparição num filme de Woody Allen – “Annie Hall” (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”).

McLuhan precisa ser relido/revisto; sua escrita era poética e profética: “O poeta, o artista, o detetive – quem quer que aguce nossa capacidade de perceber tende a ser antissocial; raramente ‘bem ajustados’, não podem seguir as correntes e tendências. Um estranho vínculo existe entre os tipos antissociais por sua capacidade de ‘ver’ os meios ambientais como eles realmente são”.

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