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Natalia – o difícil ofício

24/07/2015 11:20:05

Natalia: entre a memória e a fantasia.
Natalia: entre a memória e a fantasia.

Por Carlos Ávila

“O meu ofício é escrever histórias, coisas inventadas ou coisas que não têm a ver com a cultura, mas somente com a memória e a fantasia. Este é o meu ofício, e eu o farei até a morte. Estou muito contente com este ofício e não o trocaria por nada no mundo” – Natalia Ginzburg (1916/1991), no seu livro “As pequenas virtudes” (“Le piccole virtú”, no original), num texto onde faz uma bela reflexão sobre seu trabalho com as palavras.

Recentemente lançado no Brasil, pela Cosac Naify, em tradução de Maurício Santana Dias, o livro de Natalia – que integrou o grupo dos neorrealistas italianos, ao lado de Pavese, Calvino, Vittorini e outros – traz breves ensaios memorialísticos sobre o fascismo e a Segunda Guerra na Itália (seu marido morreu em Roma, na prisão Regina Coeli); anotações metafóricas sobre os seus “sapatos rotos”; o tocante retrato de seu amigo e poeta Cesare Pavese; a visão crítica da “bonita e melancólica” Inglaterra; reflexões sobre seu ofício de escritora; e, finalmente, digressões sobre as relações humanas e familiares (a educação dos filhos, por ex.).

Ficcionista, dramaturga, ensaísta e tradutora de Flaubert e Proust (além de ter atuado no filme “O evangelho segundo São Mateus”, de Pasolini) – a judia Natália é uma escritora direta e objetiva, que expõe com franqueza suas vivências e ideias sobre tudo: fatos e pessoas.

Não há lugar na sua prosa para sentimentalismo e autocomplacência: “nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antiga. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós”.

Sobre o poeta Pavese (que se suicidou em Turim, em 1950): “Tinha, nos últimos anos, um rosto sulcado e devastado por angustiosos pensamentos: mas conservou até o fim, na figura, a graça de um adolescente. Tornou-se, nos últimos anos, um escritor famoso; mas isso não mudou em nada seus hábitos esquivos, nem a modéstia de sua atitude, nem a humildade – conscienciosa até o escrúpulo – de seu trabalho de cada dia”.

Natalia não “alivia” o leitor em sua escrita realista e algo ríspida (afirma que não se deve “esperar da escrita um consolo para a tristeza”), antes o envolve com sua tensão narrativa e economia vocabular. Seu ofício é difícil, “não é uma brincadeira” (traz à lembrança o famoso poema de Dylan Thomas: “In my craft or sullen art”).

A partir de Debussy (“Ouvi ‘Pelléas et Mélissande’. Não entendo nada de música”), Natalia discorre sobre o silêncio (a falta da fala, a pouca troca de palavras entre os personagens), situando sua escrita: “Arrancadas dolorosamente ao silêncio, emergem as poucas e estéreis palavras de nossa época, como sinais de náufragos, fogos acessos entre colinas longínquas, frágeis e desesperados chamados que o espaço engole”.

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