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Disgrafia sensível

05/08/2015 06:00:10

“Vocábulo”: poema visual de Edgard Braga.
“Vocábulo”: poema visual de Edgard Braga.

Por Carlos Ávila

Começou a escrever versos na década de 1930, contando sílabas, influenciado formalmente por parnasianos & simbolistas – coisa inacreditável para os que conhecem sua ousada poesia visual: Edgard Braga (1897/1985), poeta-médico, assim como o “Dr. Williams” (William Carlos Williams, o grande modernista norte-americano).

Braga era alagoano, de Maceió, mas radicou-se em São Paulo, onde viveu e trabalhou como obstetra – depois de especialização na Alemanha; amigo de Oswald de Andrade (fez o parto de Rudá, filho do modernista com Pagu), ligou-se, na década de 60, aos concretistas. Em 2015 completam-se 30 anos de morte do poeta.

Nos dias 4, 11, 18 e 25 deste mês, na Casa das Rosas, em SP, Beatriz Amaral, poeta e mestra em literatura pela PUC, dará um curso sobre Braga – abarcando desde sua poesia inicial, ainda em verso, até o seu salto criativo (já na faixa dos 60 anos!) para o espacialismo – experiências caligráficas e visuais, chegando até os chamados “tatoemas” (tactilogramas). Beatriz é autora da tese “A transmutação metalinguística na poética de Edgard Braga” (lançada em livro pela Ed. Ateliê, em 2013).

A partir do livro “Extralunário” (1960), Braga começa a assimilar as experiências das vanguardas, fraturando o verso e buscando concisão no uso da palavra. Sua linguagem ganha novos recursos – ruptura que muda o rumo de sua poesia.

Cassiano Ricardo: “Não reduz Edgard a palavra a uma pilha descarregada; não a esvazia de seu conteúdo semântico e metafórico, para torná-la apenas um objeto gráfico, acústico-visual; antes, lança mão da palavra isolada, subtraída quase sempre a qualquer nexo discursivo ou qualquer imposição de gramática exterior; mas imprime um significado a tudo isso, que assim transcende a simples experiência” (posfácio a “Extralunário”).

Mas é no pequeno livro “Soma” (lançado em 63) que Braga dá o seu salto definitivo na direção do pós-verso. Trabalhando com extrema síntese, o poeta criou peças antológicas como, por ex., aquele belo “acordei de rolar brancura” – uma só linha isolada no branco da página (que se aproxima do famoso “Mattina”, de Ungaretti); ou ainda: “ilha/brilha//tranquila” (que remete à poesia-minuto oswaldiana).

Braga ainda foi adiante, numa radicalização crescente que resultou em verdadeiros ideogramas gráficos – signos & sinais em busca de significação, numa área intermediária entre o desenho e a poesia. A presença de Braga pode ser identificada na produção multimídia de Arnaldo Antunes e de poetas mais jovens que seguem essa trilha.

Na década de 70, Braga lança “Algo” (livro-envelope com pranchas soltas, com poemas visuais impressos em p&b – positivo e negativo) e “Tatuagens” (caixa também com poemas em folhas soltas; alguns deles poemas-objetos, reproduzidos fotograficamente – como o curioso poema-garrafa criado em 1965): grafites de câmara; “rascunhos” semióticos (há certo amadorismo – improviso e toque infantil – nos riscos e rabiscos de Braga).

O melhor acesso à poesia de Braga ainda é o livro-antologia “Desbragada” (organizado por Régis Bonvicino – Ed. Max Limonad, 1984), já esgotado, mas encontrável em sebos. Nos trinta anos de sua morte, o visualista Braga merecia um bem editado “livro de artista” à altura de sua instigante e criativa obra.

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