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O caderno de Boris

07/08/2015 06:00:15

Boris: relato direto e sincero.
Boris: relato direto e sincero.

Por Carlos Ávila

“Que se afirme tratar-se de um setor de combate relativamente secundário, se pensarmos na Frente Russa ou no desembarque na Normandia, tudo bem, nada a objetar. Mas não pensar sequer no sacrifício de tantos jovens e no que isso significou na vida de cada um é um verdadeiro absurdo” – assim Boris Schnaiderman, tradutor e ensaísta, inicia o seu “Caderno italiano”, recém-lançado pela Ed. Perspectiva.

Em 2015 completam-se 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial – conflito que chegou a nível radical, incluindo o holocausto e o lançamento de duas bombas atômicas. Boris foi da artilharia da FEB e esteve no front italiano; sua experiência está relatada no tocante “Guerra em surdina”, cuja primeira edição saiu em 1964, onde mescla engenhosamente realidade e ficção.

Esse “Caderno italiano” complementa o livro anterior e chega num bom momento – se junta ao lançamento do bem realizado “A estrada 47”, filme dirigido por Vicente Ferraz, sobre soldados de uma unidade de engenharia de combate. Livro e filme tratam com realismo – e nenhum ufanismo! – da participação de nossos pracinhas no conflito; o foco é a tragédia humana, o homem imerso na selvageria da guerra.

O depoimento de Boris (“além das páginas escritas agora, quando estou com 96 anos, inclui no livro, com alterações, textos que publiquei na imprensa”), direto e sincero, enriquece uma bibliografia que não para de crescer – vide, por ex., os recentes estudos de Ricardo Bonalume Neto, Cesar Campiani Maximiano e William Waack; trabalhos que lançam novas luzes sobre o tema e ajudam a superar a “incompreensão generalizada” em relação ao mesmo.

É com extrema lucidez que Boris contextualiza a situação do país e do povo em relação à guerra na Europa, num período ditatorial, com clara simpatia do governo getulista aos países do Eixo. A partir de sua experiência pessoal – a vinda com a família da Rússia para o Brasil em 1925; a formação em Agronomia na década de 40; o curso no Regimento de Artilharia, no Rio, e sua convocação na sequência – Boris monta um claro painel da época.

Boris pergunta – “como exigir de um soldado que lute numa guerra que ele não entende e se o seu chefe máximo, poucos meses antes de enviá-lo para lutar contra os alemães, parecia querer alinhar-se com estes”? – e ele próprio responde: “dá a impressão de um absurdo, mas como testemunha direta dos fatos, posso dizer que os brasileiros lutaram de verdade, com ímpeto e muitas vezes com real competência, adquirida no próprio campo de luta”.

Tempos depois, meados dos anos 60, eis Boris atravessando a Ponte Vecchio, na bela Florença –“a única ponte que os alemães não dinamitaram”; revendo os cenários dos combates, mais ao norte. Faz um giro na região; espanta-se com a reconstrução de cidades e monumentos; encontra um país mudado, cheio de turistas e com poucos sinais aparentes da guerra (apenas alguns “remendos”): “eu conheci esta terra no sofrimento e na desolação!”.

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