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Sabedoria de Gracián

12/08/2015 06:00:37

Gracián: escrita concisa e atual.
Gracián: escrita concisa e atual.

Por Carlos Ávila

“O homem nasce bárbaro” – afirma Baltasar Gracián (1601/1658), o grande barroco-conceptista. E acrescenta, no seu “A arte da sabedoria mundana – um oráculo de bolso”: “Redime-se a besta cultivando-a. A cultura nos transforma em pessoas: e tanto mais, quanto maior for a cultura. Com tal crença, a Grécia pode chamar o resto do mundo de bárbaro”.

“A Grécia e Roma civilizaram VIA LINGUAGEM”, segundo Ezra Pound. Vale dizer, por meio da cultura – ou ainda, da educação. O que fazer quando se vive num país onde essas prioridades são negligenciadas, em função de projetos menores – político/partidários e de poder? A ignorância está por toda parte, em vários níveis, inclusive nas nossas elites.

Voltemos a Gracián: “A ignorância é rude e grosseira. Não existe nada mais educador do que o conhecimento”. Mas, infelizmente, como observa também o escritor/pensador, “temos que viver com os outros, e a maioria é ignorante”; atualíssima visão que salta do século 17 espanhol para os nossos dias, onde o pensamento mais avançado (e aprofundado) tem, forçosamente, que conviver com os mais abomináveis atrasos – misérias e violências.

O mestre do siglo de oro (que aos 18 anos entrou para a Companhia de Jesus) pagou um preço alto por suas ousadas reflexões; publicou seus livros sem permissão da ordem jesuíta, sob o pseudônimo de Lorenzo Gracián, e acabou punido: perdeu sua cátedra em Saragoça e morreu numa espécie de exílio no campo – “vigiado”, segundo instruções de Roma.

“Não que seus escritos fossem considerados heréticos” – observa Christopher Maurer, da Universidade Vanderbilt, num texto de 1991; “era um tanto impróprio para um padre escrever tão brilhantemente sobre sabedoria mundana e comportamento político, mas os jesuítas nunca acusaram Gracián de contradizer a doutrina católica. O que exasperava os superiores era sua persistente desobediência, e talvez sua indiferença”.

A sabedoria de Gracián está por toda parte de seu “oráculo de bolso”; seu estilo é conciso e aforismático – surpreendentemente moderno e atual; foi apreciado por Nietzsche e traduzido para o alemão por Schopenhauer; vários pensadores contemporâneos ainda têm o livro de Gracián como uma referência.

“A brevidade é agradável e lisonjeira, além de dar mais resultado” – ressalta Gracián, como se estivesse definindo sua própria escrita (um minimalismo avant la lettre?); e acrescenta: “as coisas boas, se breves são duplamente boas (…), as quintessências dão melhor resultado que as miscelâneas”.

Em meio à barbárie de nossos dias – onde educação e cultura vivem a reboque de projetos menores, como já foi dito – a leitura de Gracián é um alento (e um alerta): “homem sem informações, mundo às escuras”.

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