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Octavio Paz e o Brasil

11/04/2014 22:45:04

O ponto alto da presença de Paz em nosso país é a tradução de “Blanco” por Haroldo de Campos.
Por Carlos Ávila
O centenário do grande poeta e pensador mexicano Octavio Paz (1914/1998), Prêmio Nobel de Literatura, já foi assinalado e noticiado aqui, no último dia 31 de março, pelo companheiro Marco Lacerda. Voltamos ao tema a partir das observações de Marco sobre a vinda de Paz ao Brasil, em 1985, e sobre suas afinidades eletivas e afetivas com Haroldo de Campos (1929/2003), seu primeiro tradutor e divulgador entusiasmado entre nós.Haroldo apresentou aos brasileiros o poeta mexicano, salvo engano nosso, nas páginas do jornal “O Estado de São Paulo”, ainda no início dos anos 1970, num artigo seguido por uma breve antologia poética (alguns textos traduzidos de “Libertad Bajo Palavra”).
Já em 1972 saía o livro “Signos em Rotação”, pela Ed. Perspectiva (Coleção Debates) – com organização do poeta paulista e de Celso Lafer, e tradução de Sebastião Uchoa Leite – trazendo uma ampla seleção dos mais importantes ensaios de Paz. Seria o início de uma série de publicações de seus livros no Brasil e, consequentemente, da disseminação de seu poderoso pensamento por aqui. Neste ano, em que se comemora o centenário do poeta, várias novas traduções estão sendo lançadas, entre elas as de “O Arco e a Lira”, “Os Filhos do Barro” e “Labirinto da Solidão”.Um ponto alto da presença editorial de Paz no país é, sem sombra de dúvida, a “transcriação” em português, por Haroldo, do seu belo e longo poema “Blanco” (lançada pela Ed. Guanabara, em 1986, no volume intitulado “Transblanco”).
Trata-se de um texto que transborda pelas páginas, incluindo uma movimentada visualidade, com o uso expressivo de tipos diferentes e do espaço em branco. Segundo Haroldo, neste “poema desdobrável como um livro japonês, visual, de leitura múltipla, a metáfora persiste, porém resgatada da fácil carnadura discursiva, liberta da linearidade da língua, fragmentada, concentrada, pulverizada em estilhaços-concreções”.“Transblanco”, que traz ainda outras traduções de Paz e ensaios sobre sua obra, reúne também a correspondência do mexicano com Haroldo sobre questões de poesia e poética (cartas trocadas entre 1968 e 1981).
Nessa correspondência chama a atenção, particularmente, o momento em que ambos discutem a tradição metafórica e retórico-discursiva da poesia hispano-americana – em geral, poemas longos com versos derramados e surrealizantes. Haroldo distingue a obra de Paz dessa tradição, criticada por ele. Paz discorda dele, “não porque não seja exata a definição”, mas assinalando que nada tem contra essa tradição que, realmente, nunca se “encaixou” muito bem na poesia brasileira. Aquela observação de Haroldo traz à lembrança uma brincadeira do seu companheiro Décio Pignatari. Segundo este, nossa poesia nunca foi surrealista, talvez porque o país já seja surrealista…
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