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Trocadalhos do carilho

19/08/2015 06:00:04

Duchamp travestido: Rrose Sélavy.
Duchamp travestido: Rrose Sélavy.

Por Carlos Ávila

“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!/Criança! não verás nenhum país como este!” – Olavo Bilac sobre a pátria edulcorada (e nada educadora!); “Bravil, anda com ferro e gorgulho a terra onde Maciste, criança, enfrentou João Lúcio Godar: não verás nenhum Paris como este” – Caetano Veloso parodiando/trocadilhando sobre o poema-xarope do patrono do serviço militar obrigatório.

Trocadilhos são sempre divertidos – jogos de palavras e de sentidos. Os franceses chamam de calembour; os ingleses de pun; os espanhóis de juego de palabras. Diversão garantida – a língua se revira, a linguagem delira.

Duchamp: “Os trocadilhos sempre foram considerados uma forma menor de vivacidade e humor, porém eu os considero uma fonte de estímulo devido ao seu som real e aos significados implícitos nas inter-relações de palavras díspares. Para mim, isso é um meio infinito de alegria – e está sempre à mão” (entrevista a Katharine Kuh).

Dois títulos trocadilhescos de obras do grande artista francês (que se travestiu e colocou bigode e barba na Monalisa) – dadá-surrealista, conceitual avant la lettre:  “Rrose Sélavy” (jogando com rose c’est la vie); “L.H.O.O.Q”(frase obscena quando as letras são lidas em francês: elle a chaud au cul; em canibalês: ela tem fogo no rabo).

O poeta Robert Desnos, a partir de “Rrose Sélavy”, criou uma série de variações semânticas, no breve poema “Rrose Sélavy, Etc.” – talvez intraduzível, pode ser lido e curtido apenas pela sonoridade: “Rose aisselle a vit/Rr’ose, essaie là, vit/Rôts et sel à vie/Rose S, L, have I/Rosée, c’est la vie/Rrose scella vît/Rrose sella vît/Rrose sait la vie/Rose, est-ce, hélas, vie?/Rrose aise héla vît/Rrose est-ce aile, est-ce elle?/Est celle/AVIS”.

Trocadilhos são encontrados nos textos de Joyce e de Raymond Queneau; em alguns poemas-piada modernistas; nos romances-invenção de Oswald e no “Catatau” de Paulo Leminski; nas letras de Cole Porter e dos Beatles. O músico John Cage criou o ótimo “Happy new ear” (algo como feliz novouvido; jogando com a tradicional expressão happy new year – feliz ano novo).

A arte contemporânea também lança mão de trocadilhos, em títulos e textos de obras – como Duchamp fez pioneiramente (deve-se ressaltar que há os trocadilhos não verbais, icônicos, encontráveis no cinema e na videoarte; em performances e instalações).

Mas a fonte original do trocadilho parece ser mesmo verbal; e como diz Duchamp, “está sempre à mão”: o trocadilho vive em certas brincadeiras infantis, na publicidade e nos quadrinhos, no humor jornalístico (vide o nosso José Simão) e televisivo, na linguagem telegráfico-fragmentária do facebook.

Até nos papos (sem papas na língua) de boteco – muitas vezes pornô-escatológicos – o trocadilho corre solto: “não confundir as obras de arte do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras”.

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