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O marinheiro beberrão

21/08/2015 06:00:00

Pound com seu amigo John Quinn, em Paris (1923).
Pound com seu amigo John Quinn, em Paris (1923).

Por Carlos Ávila

O texto abaixo pode funcionar como uma espécie de mini-conto, desentranhado de um dos “Cantos” do poeta norte-americano Ezra Pound (1885/1972); na tradução dos Campos e de Pignatari, “Cantares” (título que segue indicação do próprio Pound, em carta aos tradutores: “if not too late can you use the title cantares”).

Trata-se de uma narrativa sutil, de desfecho inusitado, inserida no “Canto 12” e creditada a John Quinn (1870/1924) – um importante advogado, colecionador de arte e manuscritos, amigo do poeta; tomei a liberdade de retirar os versos do contexto e criar um novo texto, em prosa, com eles – simples e direto. Espero que os leitores se divirtam com essa apropriação/recriação (melhor seria dizer recreação) textual, que mantém quase intacta a excelente tradução.

O marinheiro beberrão

Era uma vez um pobre e honesto marinheiro, um beberrão de marca, um cabra safado, um salafrário, verdadeiro esponja, que a bebida acabou por mandar ao hospital – onde foi operado. E lá havia uma pobre puta que teve um filho na enfermaria de mulheres, enquanto tratavam do marujo.

Após a operação, quando voltou a si, trouxeram-lhe o garoto e lhe disseram: “Olhe o que tiramos de dentro de você!”. E ele olhou para aquele troço e sentiu-se melhor. Quando deixou o hospital, largou de beber. E quando viu que estava em boa forma engajou-se em outro navio.

Economizou o pagamento – e continuou a economizar o pagamento até comprar uma parte do navio; e por fim tornou-se dono da metade. Depois de um navio, e, com o tempo, de uma linha inteira de vapores.

Educou o garoto; e quando o garoto estava no colégio, o velho marinheiro sentiu-se mal de novo. Os doutores disseram que ele estava nas últimas.

O garoto veio para a beira da cama, e o velho marinheiro disse: “Filho, sinto muito não poder aguentar um pouco mais. Você é moço ainda. Eu lhe deixo res-pon-sa-bi-li-da-des. Pena que eu não possa esperar até que você cresça e se sinta mais capaz de levar nosso negócio adiante…”.

Depois do que o pai disse, o garoto respondeu: “Mas, pai, não… Não se preocupe comigo, eu estou bem. Trata-se de você, pai”.

Então, o velho marinheiro disse: “Aí está, meu filho, você acaba de dizer. Você me chamou de seu pai, e eu não sou. Não sou seu pai, não. Eu não sou seu papai, não”.

Fez uma pequena pausa e concluiu: “Eu não sou seu pai, mas sua mãe. Seu pai era um rico negociante de Istambul”.

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