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Um clássico finlandês

26/08/2015 11:23:22

Canto 27 do “Kalevala” no original.
Canto 27 do “Kalevala” no original.

Por Carlos Ávila

“Kalevala”: livro diferente e atraente; um clássico da literatura finlandesa – um épico formado por 50 textos, reunidos pelo estudioso Elias Lönnrot (1802/1884); seu “poema primeiro” foi publicado, em 2009, pela Ateliê Editorial, traduzido diretamente do original.

Os autores dessa façanha são José Bizerril – poeta e doutor em Antropologia pela Universidade de Brasília – e Álvaro Faleiros, também poeta, tradutor e professor de literatura francesa na USP, especialista em tradução poética (há uma versão integral do texto – realizada em Portugal por Ana Isabel Soares e Merja de Mattos-Parreira – lançada em 2013, pela editora D. Quixote).

A epopeia “Kalevala” (o título remete a um personagem, o gigante Kaleva) – formada por poemas tradicionais milenares coletados por Lönnrot – fundou “a base do sentimento de uma ideia nacional na época de sua primeira publicação em 1835”, como observa no seu prefácio Raisa Ojala – graduada em filologia portuguesa pela Universidade de Helsinki.

Esse “poema primeiro” relata a criação do mundo e o nascimento do herói Väinämöinen; os demais cantos incluem aventuras dele e também de outros heróis míticos (Lemminkäinen e Ilmarinen, por ex.) na Terra do Norte. Diversos personagens e temas entram em cena na sequência.

A base do “Kalevala” tem origem na tradição oral camponesa, na qual a poesia era cantada em eventos sociais, lançando mão, inclusive, de improvisações e recursos performáticos.

O texto em português é límpido, sonoro e fluente, embora sua semântica possa ser complexa: “Minha mente almejando,/meu cérebro concebendo/começar logo a cantar,/e sair a recitar/puxar versos deste povo,/cantar versos ancestrais./Palavras na boca solvem/e falares desfalecem/na minha língua se aninham/entre os dentes se esfacelam”.

Um elemento que ressalta na estrofe citada acima, e também em várias outras do “Kalevala”, é o ritmo obtido a partir das características formais da poesia finlandesa tradicional (sua métrica peculiar) e do uso da aliteração, do paralelismo, da repetição de partículas etc.; esta poesia não separa o épico do lírico, segundo afirma Bizerril.

“Frio me proferiu seus versos,/chuva chamou seus poemas./Outros versos trouxe o vento,/ondas do mar conduziram./Aves versaram palavras,/frases o cimo das árvores”. Há no “Kalevala”, com certeza, uma rara e original beleza.

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