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Uma carta sobre Villon

06/11/2015 06:00:35

Sebastião: Villon em português.
Sebastião: Villon em português.

Por Carlos Ávila

Fui amigo de Sebastião Uchoa Leite (1935/2003) – poeta, tradutor e ensaísta pernambucano –, que se radicou no Rio. Trocamos cartas, telefonemas e livros; visitei-o várias vezes no seu apartamento carioca, na Av. Ataulfo de Paiva, no Leblon. Foram muitos papos poéticos e bebericagens noturnas (na época, Sebastião era chegado numa vodka). Estivemos juntos também em encontros literários em BH, São Paulo e Curitiba (nesta última cidade, num evento sobre o Leminski).

Sebastião está, sem dúvida, entre os mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século 20; traduziu para nossa língua, entre outros, Lewis Carroll (“a primeira versão de Carroll para adultos no Brasil”, enfrentando o complexo texto original) e Octavio Paz (a primeira seleção de ensaios do mexicano lançada aqui: “Signos em rotação”).

Em 1988, Sebastião publicou a sua tradução do importante poeta medieval francês François Villon (1431/desaparecido em 1463), autor de Le Testament – um verdadeiro tour de force (trata-se de um longo poema, metrificado e rimado); na ocasião, houve um súbito interesse por Villon no país (Péricles Eugênio da Silva Ramos e Afonso Félix de Sousa também o traduziram). Resenhei o livro no extinto “Diário de Minas” (19/3/88); segue transcrita abaixo uma carta enviada por Sebastião, na época (11/4/88), comentando a recepção do seu Villon.

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Caro Carlos:

Obrigado por tudo, pelos versos, pela carta e sobretudo pelo artigo com o qual honrou meu trabalho. Na verdade, devo a Minas uma atenção crítica da qual o Rio, p. ex., parece não me julgar digno, a julgar por um artigo mutilado no Globo e por uma “reportagem” sem pé nem cabeça no caderno dito “Ideias” do JB sobre a literatura dita “maldita” (e haja Genet comparado a Villon e outras bobagens…), onde minha tradução nem é citada, apesar de uma contraditória chamada na 1ª. página. Vá entender…

Já em Sampa, no Estadão fui bem tratado, na Folha deram um bom espaço, mas o rapaz que escreveu estranhou algumas “gírias”, i. é., coloquialismos, e achou que algumas soluções de PESR eram melhores. Tudo bem, meus filhos, tudo bem. E… foi só. Fui quase ignorado no Rio e a mídia mais chic (veja, i. é, leia) esnobou-me.

O seu artigo, e também o de Márcio Almeida, deram um toque diferente. Achei interessante você falar no estilo áspero, eu diria mesmo ríspido, de Villon, que tantos teimam em amaciar. Uma tentativa que fiz foi de buscar reproduzir formalmente, através das angulosidades métricas (nem sempre sigo certinho, quebro de propósito as oitavas com versos ímpares de 7 ou 9), tal aspereza.

Enfim, agradeço-lhe a boa surpresa do seu artigo. Espero que nos vejamos pessoalmente quanto antes.

Abracíssimo,

Sebastião

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