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Bola de Nieve

13/11/2015 09:07:46

Bola de Nieve: criando e recriando canções.
Bola de Nieve: criando e recriando canções.

Por Carlos Ávila

A primeira vez que vi seu nome foi na capa do “Araça Azul” de Caetano Veloso, lançado em 1972 (um dos mais radicais e criativos discos da nossa música popular, juntamente com o disco branco – ou “da mosca” – de Walter Franco).

O LP de Caetano trazia uma dedicatória: “UM DISCO PARA ENTENDIDOS: Bola de Nieve – Hermínia Silva – Clementina de Jesus – Dinailton – D. Morena”. O estranho nome Bola de Nieve me intrigou (estávamos ainda no período pré-internet; hoje, “dando um Google” se chega facilmente ao Bola). Mais adiante, numa ida a SP, vi e ouvi no Ap. do poeta Duda Machado um vinil do Bola e fiquei fascinado; Duda o gravou e me deu numa fita cassete que guardo até hoje como um tesouro. Atualmente, tenho dois CDs dele; além de um pequeno, mas precioso, livro sobre ele (com textos, letras de canções, partituras etc. – organizado por Miguelito Ojeda; Editorial Letras Cubanas).

Pianista, cantor e compositor, Bola de Nieve (1911/1971) é um dos ícones da música cubana (como Ernesto Lecuona); pode figurar ao lado do nosso Pixinguinha e do norte-americano Armstrong – três linhas de força da música negra das Américas (de raiz africana); três grandes contribuições para a música universal: Cubanía/rumba + choro/samba + jazz.

Nascido em Havana, em 11 de setembro de 1911, Ignacio Jacinto Villa y Fernández ficou conhecido internacionalmente como Bola de Nieve (apelido dado por um colega de escola). Origem humilde: seu pai era cozinheiro de profissão; sua mãe “organizadora de fiestas y capaz de bailar la mejor rumba de cajón o el toque de Yemayá” – ambos ligados ao universo afro-cubano; Bola tinha cinco irmãos.

Aos doze anos de idade começou seus estudos de solfejo e teoria musical; depois estudou piano em conservatório. Cursou a “Escuela Normal para Maestros”, mas não chegou à Universidade por problemas financeiros; começou a trabalhar cedo acompanhando ao piano filmes mudos e a seguir a cantora Rita Montaner, nos anos 30. Um dia a substituiu num espetáculo e nunca mais parou; tornou-se o Bola de Nieve e “correu mundo” com seu piano e sua voz (EUA, México, Argentina, Europa, Rússia, China…).

Intérprete de grande personalidade, Bola é único – com suas mãos mágicas ao piano. Sua voz tem algo de Armstrong. Canta não só em castelhano (ou em dialetos caribenhos), mas também em diversos idiomas. Gravou, por ex., “Be careful it’s my heart” (de Irving Berlin) e “La vie en rose” (de Edith Piaf; ela própria declarou que ninguém canta essa canção como ele).

“No puedo ser feliz/no te puedo olvidar/sinto que te perdi/y eso me hace pensar./He renunciado a ti/ardiente de pasión/no se pode tener/consciencia y corazón” – versos de uma linda canção de Adolfo Guzmán; interpretação maravilhosa do Bola, entre tantas outras: “Vete de mi”, “La flor de la canela”, “Drume negrita”, Babalú”, “El manisero”… Gravou, inclusive, de uma forma muito própria, “Os quindins de iaiá” do nosso Ari Barroso.

“Cuando escuchamos a Bola de Nieve” – afirmou o grande violonista espanhol Andrés Segovia – “parece como se asistiéramos al nascimento de la palabra y de la música que él expresa”. Bola de Nieve: “un negro en flor” – como ele próprio se definiu.

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