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Piano, piano...

25/11/2015 06:00:28

Joe Albany: toque único e refinado.
Joe Albany: toque único e refinado.

Por Carlos Ávila

As mágicas mãos de Joe Albany (1924/1988) escorrem pelas teclas do piano; e é um desfilar sem fim de clássicos do jazz, ou ainda da melhor canção norte-americana do século 20 – composições de Vernon Duke (autor da belíssima “Autumn in Paris”), Jerome Kern, Gershwin, Duke Ellington etc. Tudo isso no CD “An evening with Joe Albany” (gravado em Maio de 1973) – uma joia rara; uma memorável sessão de medleys.

Os dois instrumentos preferidos deste colunista são o piano e o violoncelo (mas há também um lugar especial no coração – e nos ouvidos – para o violão, por exemplo, de um Segovia ou de um John Williams, de um Baden ou ainda de um Paco de Lucía; igualmente para o trompete de um Armstrong ou de um Miles Davis). Ah! Mas o piano… Enfim, trata-se de uma preferência pelo “solo” em geral; e ainda pela música “de câmara”, pelas pequenas formações instrumentais – nas músicas erudita e popular (no choro e no jazz, particularmente).

Segundo o indispensável “Dicionário de Música” de Tomás Borba e Fernando Lopes Graça, o piano é um “instrumento de cordas percutidas munido de um teclado. Data dos princípios do séc. XVIII e resultou de uma aplicação ao cravo do princípio da percussão do clavicórdio, substituídas as tangentes deste pelos chamados martelos (‘cravo de martelos’)”.

Piano piano si va lontano – diz o famoso ditado italiano; vida longa aos pianistas! Do toque sutil nas teclas brancas e pretas se chega a infinitas melodias e harmonias (também às dissonâncias debussynianas e estruturas dodecafônicas; ao prepared piano de Cage e ao minimalismo de Philip Grass).

O nobre instrumento traz à lembrança, rápida e rasteiramente, alguns registros ouvidos e reouvidos sempre: sonatas de Mozart pelo grande Richter; os estudos de Chopin (e muito mais: Liszt, Schumann, Saint-Saëns, Ravel, Villa-Lobos etc.) pelo nosso genial Nelson Freire; Schubert e Brahms pela portuguesa Maria João Pires (num belo CD em duo com o cello de Antonio Menezes); peças e peças de Debussy por Arturo Benedetti Michelangeli; algum Satie por Anne Queffélec; “L’opera per piano forte” de Dallapiccola por Lya de Barberiis; Bartók e mais recentemente Rachmaninov por Martha Argerich; ou ainda Bach (“Variações Goldberg”) e Beethoven (sonatas e bagatelas) – e os dodecafônicos Berg e Webern – pelo excêntrico canadense Glenn Gould.

Há ainda as históricas gravações ao piano dos próprios Gershwin e Manuel de Falla; no âmbito jazzístico-popular as diferenciadas performances de Duke Ellington e Oscar Peterson; de Count Basie e Thelonious Monk; de Nat King Cole e Bola de Nieve (ambos associando a voz ao instrumento); de David Brubeck e de McCoy Tinner; de Tom Jobim e de Bill Evans… Cada toque é único – o modo singular de um pianista ferir (e sentir) o teclado.

“Soltaram os pianos na planície deserta/onde as sombras dos pássaros vêm beber./Eu sou o pastor pianista,/vejo ao longe com alegria meus pianos/recortarem os vultos monumentais/contra a lua” – Murilo Mendes, poeta-pastor pianista.

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