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Koellreutter

27/11/2015 09:02:28

Koellreutter: mestre de muitas gerações.
Koellreutter: mestre de muitas gerações.

Por Carlos Ávila

Como muitos outros, fugiu do nazismo na Europa e veio dar com os costados no Brasil, no final dos anos 1930; Hans-Joachim Koellreutter (1915/2005) – professor, compositor e musicólogo de origem alemã (estudou comHindemith). Deixou uma carreira de flautista no velho mundo e trouxe para o novo mundo O NOVO – introduziu o dodecafonismo por aqui (ou seja, a linguagem musical atonal, criada por Schoenberg, baseada no emprego sistemático da “série dos doze sons”).

Neste próximo domingo, 29 de novembro, um concerto na Fundação de Educação Artística, aqui em BH, homenageará o centenário do mestre; peças dele e de outros compositores contemporâneos serão apresentadas por um grupo formado por Eladio Pérez-González (voz), Felipe Amorim (flauta), Alexandre Silva (clarineta) e Berenice Menegale e Ayumi Shigeta (pianos). Koellreutter foi muito ligado à Fundação (deu inúmeros cursos e palestras ali; identificava-se com a didática anticonvencional da instituição – idealizada e dirigida com mãos firmes e grande sensibilidade, há longos anos, por Berenice).

Koellreutter tornou-se professor do Conservatório Brasileiro de Música, no Rio, e fundou o grupo “Música Viva” – com jovens compositores que seguiam suas ideias então revolucionárias; naturalizou-se brasileiro em 48. Ensinou e formou muita gente, também em São Paulo e na Bahia; “correu mundo”, vivendo em vários países, inclusive na Índia e no Japão.

Na década de 50, suas ideias musicais inovadoras foram muito combatidas pelos preconceituosos nacionalistas, de orientação mário-andradina, como o compositor Camargo Guarnieri. Este lançou uma “Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil”, de cunho stalinista, atacando os jovens discípulos de Koellreutter que assimilaram o dodecafonismo.

A brava Pagu (Patrícia Galvão) – sempre na vanguarda, mulher-escritora à frente de seu tempo – reagiu em suas crônicas culturais à carta-manifesto de Guarnieri, qualificado por ela como “compositor transformado em escriba comunistoide, em defesa da mais reacionária onda anticultural de nosso tempo”.

Pagu: “Qualquer imbecil a serviço da propaganda stalinista conhece bem o emprego dessa terminologia com que Camargo Guarnieri se põe a defender a música brasileira – folclórica principalmente – terminologia que se estadeia em coisas como ‘cosmopolitismo’, ‘cerebralista’, ‘antipopular’ e antinacional’, e também ‘arte degenerada’ de empréstimo da linguagem hitleriana, diante de toda a arte moderna”.

Conheci Koellreutter por intermédio de Rubner de Abreu – músico e professor (então seu aluno e, depois, amigo-interlocutor); cheguei a entrevistá-lo duas vezes para o jornal “Estado de Minas”. Na primeira (e mais longa) dessas entrevistas (8/3/1979), o mestre profetizou: “a função do músico do futuro vai ser escrever música funcional” – aplicada a alguma outra arte ou à mídia (teatro, cinema, rádio, TV) ou ainda a algum uso prático (musicoterapia, música para educação, jingles). O futuroje – pós-internet – mostra que ele tinha uma boa dose de razão.

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