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Pessoa, Pessoas

02/12/2015 07:00:50

Pessoa: o que em mim sente está pensando.
Pessoa: “o que em mim sente está pensando”.

Por Carlos Ávila

Pessoa – 80 anos de morte: o maior poeta português do séc. 20, um dos mais importantes de toda história da poesia. Pessoas – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos; ou ainda o desassossegado Bernardo Soares; e muitos outros mais…

Fernando Pessoa (1888/1935) – poeta múltiplo com suas várias personas (pseudônimos, heterônimos, semi-heterônimos…); “Je est un autre”, poderia ter escrito como Rimbaud. Eu é um outro; ou outros. Eus – ecos do ego. Pessoa morreu em 30 de novembro de 35, com apenas 47 anos – deixou um baú cheio de manuscritos e um único livro editado em vida: o genial “Mensagem”, em 1934. Sua obra é sua vida: poesia-biografia.

Abandonou o curso de Letras; tentou criar uma tipografia/editora, mas fracassou – viveu modestamente, quase anônimo, como redator de cartas comerciais. Bilíngue, escreveu seus primeiros poemas em inglês (também traduziu “O corvo” de Poe); mais adiante embarcou com alguns jovens amigos (Sá-Carneiro e Almada Negreiros, entre eles) na aventura futurista da revista “Orpheu”. Chegado ao álcool (é famosa a sua foto “em flagrante delitro”, numa taberna lisboeta) e ao ocultismo, participou ainda de outras publicações; mas os livros, os livros mesmo, ficaram para a posteridade.

O linguista Roman Jakobson (1896/1982) analisou os “oximoros dialéticos” de Pessoa (particularmente, no poema “Ulysses”: “O mito é o nada que é tudo/o mesmo sol que abre os céus/é um mito brilhante e mudo/o corpo morto de Deus,/vivo e desnudo”); já o poeta e ensaísta Octavio Paz (1914/1998) analisou o Pessoa “desconhecido de si mesmo”.

Jakobson: “É imperioso incluir o nome de Fernando Pessoa no rol dos artistas mundiais nascidos no curso dos anos 80 – Picasso, Joyce, Braque, Stravinsky, Khliébnikov, Le Corbusier. Todos os traços típicos dessa grande equipe encontram-se condensados no grande poeta português”.

Paz: “Anglômano, míope, cortês, fugidio, vestido de escuro, reticente e familiar, cosmopolita que prega o nacionalismo, investigador solene de coisas fúteis, humorista que nunca sorri e gela-nos o sangue, inventor de outros poetas e destruidor de si mesmo, autor de paradoxos claros como a água e como ela vertiginosos: fingir é conhecer-se, misterioso que não cultiva o mistério, taciturno fantasma do meio-dia português, quem é Pessoa?”.

Talvez apenas um poeta fingidor que cumpria – conforme ele próprio escreveu – “informes instruções do além”. Pessoa, voz que soa e ressoa ainda hoje (e sempre!):

“Outros haverão de ter
o que houvermos de perder.
Outros poderão achar
o que, no nosso encontrar,
foi achado, ou não achado,
segundo o destino dado”.

 

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