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Crime contra a poesia

04/12/2015 08:32:42

Fayadh: mais um poeta condenado à morte.
Fayadh: mais um poeta condenado à morte.

Por Carlos Ávila

Ao longo de todo o século 20 muitos poetas foram vítimas de ditaduras e regimes totalitários – enviados para campos de extermínio ou de trabalho forçado (nazistas – tipo Auschwitz – ou gulags stalinistas); executados sumária e covardemente (como Lorca pelos franquistas); condenados ao paredón ou a “mofar” na prisão – censurados e proibidos de publicar (como Virgilio Piñera e outros, em Cuba). Quando não fizeram isso, esses governos autoritários levaram os poetas ao desespero total – ao exílio, ao hospício ou ao suicídio (como aconteceu com Maiakovski).

Infelizmente, essa situação ainda persiste no séc. 21. Li estupefato, na coluna da competente e corajosa Adriana Carranca (repórter do “Estadão” que cobriu a guerra no Afeganistão e no Paquistão; e também adentrou países muçulmanos como Irã, Egito, Indonésia e os territórios palestinos para matérias especiais), sobre mais um crime contra a poesia, ou seja, contra um poeta – não ocidental, árabe mesmo.

“O poeta Ashraf Fayadh” – segundo Adriana – “faz parte de uma geração de artistas que tenta alargar os limites da liberdade de expressão na Arábia Saudita. Ele organizou a primeira exposição de artes de Jedá, foi co-curador da Bienal de Veneza e levou a arte saudita contemporânea a galerias como Tate Modern, de Londres, com o coletivo Edge of Arabia”.

Agora o trágico da história: “Fayadh foi condenado à morte por apostasia – entre as provas apresentadas contra ele estão o fato de usar cabelo comprido e fumar, hábitos considerados anti-islâmicos pelo juiz de Abha, berço da cena artística emergente. Fayadh pode ser decapitado por um carrasco da monarquia”.

É inacreditável (e chocante!) esse relato de Adriana. Mas tem mais: antes Fayadh já havia sido condenado por ter fotos no seu celular ao lado de mulheres, em vernissages no exterior; segundo a lei trata-se de “crime cibernético” (pena: quatro anos de prisão e 800 chibatadas!).

Conforme a Anistia Internacional, há um número recorde de execuções (a maioria, por decapitação) na Arábia Saudita; a pena de morte é também aplicada a homossexuais, adúlteros, usuários de drogas e praticantes de bruxaria.

Também não há ali respeito algum pela liberdade de expressão: “ler revistas e jornais censurados, fotografar prédios oficiais e religiosos ou criticar as autoridades implicam punições severas, assim como o consumo de álcool ou porco, proibidos no Islã” – acrescenta Adriana.

Enquanto estão todos chocados com as ações do EI (a mais recente em Paris) – sempre em nome de Alá –, a tolerada Arábia Saudita, sem oposição alguma, desrespeita e faz também terrorismo com o poeta Fayadh (e com outros cidadãos); vive numa espécie de “idade da pedrada”. É inconcebível que o país pertença à ONU – e mais: que tenha posição de comando no Conselho de Direitos Humanos da organização. Escárnio completo.

“O olhar do poeta é vastíssimo” – escreveu o nosso Murilo Mendes – “só ele percebe os inumeráveis crimes contra a Poesia”. Freedom for Fayadh! – gritam as redes sociais em toda parte.

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