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Cartas a um jovem poeta

09/12/2015 11:31:03

Rilke: forma e imagem – cristal poético.
Rilke: forma e imagem – cristal poético.

Por Carlos Ávila

140 anos de nascimento de Rilke – um dos maiores poetas do século 20, ao lado de outros grandes como Eliot, Pound, Yeats, Maiakovski, Lorca, Pessoa, Apollinaire, Valéry, Kaváfis, Drummond, Cabral, Octavio Paz…

Rainer Maria Rilke (1875/1926) nasceu em Praga (ainda no império austro-húngaro; atual República Tcheca); escreveu sua obra em alemão (poemas também em francês). Livros mais importantes, segundo seus estudiosos e tradutores:“O Livro das Imagens” (Das Buch der Bilder) – 1902; “Novos Poemas” (Neue Gedichte) – 1907 a 1908; “Elegias de Duíno” (Duineser Elegien) – 1923 e “Sonetos a Orfeu” (Sonette an Orpheus) – 1923.

Entre suas obras em prosa (“Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, “Cartas sobre Cézanne”, “O diário de Florença”, “O testamento”, “Rodin” etc.), já traduzidas entre nós, a mais conhecida é “Cartas a um jovem poeta” – seguem abaixo alguns trechos dessas belas cartas, com toques precisos e ainda atuais, trocadas com o jovem poeta Kappus, entre 1903 e 1908; publicação póstuma em 29, em Berlim (trad. de Fernando Jorge).

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Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: “Morreria, se não me fosse permitido escrever?” Isto, principalmente. Na hora mais tranquila da noite, faça a si esta pergunta: “Sou de fato obrigado a escrever?” – Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples “Sou”, então construa sua vida em harmonia com esta necessidade.

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Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

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Não procure, por ora, respostas que não lhe podem ser dadas, porque não saberia ainda colocá-las em prática e vivê-las. E trata-se, precisamente, de viver tudo. No momento, viva apenas suas interrogações. Talvez que, somente vivendo-as, acabe um dia por penetrar, sem perceber, nas respostas.

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Os homens possuem, para todas as coisas, soluções fáceis e convencionais, as mais fáceis das soluções fáceis. Entretanto, é evidente que sempre se deve preferir o difícil: tudo o que vive lá cabe.

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A própria arte é uma forma de vida. Podemos preparar-nos para ela sem o saber, vivendo de um modo ou de outro. Em tudo o que corresponde ao real estamos mais próximos da arte do que nessas chamadas profissões artísticas que não se fundamentam em nada da vida e que, ao mesmo tempo que copiam a arte, a negam e a ofendem.

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