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Os escritores e suas cidades

16/12/2015 10:59:56

Busto de Borges no Café Tortoni, em Buenos Aires.
Busto de Borges no Café Tortoni, em Buenos Aires.

Por Carlos Ávila

Ele vinha aqui com outros escritores? – Sim, veio com García Marquez e com Carlos Fuentes. Também trouxe o primeiro-ministro espanhol Felipe González. Quais eram os gostos gastronômicos habituais de Octavio Paz? – Pratos franceses, e gostava muito de comida caseira. Havia um pratinho que adorava e que às vezes pedia para a dona. ‘Você pode me preparar salsicha com lentilhas?’, ele dizia a ela. E gostava muito de beber, mas não em excesso. Em especial, gostava do vinho tinto da região francesa da Borgonha”.

O diálogo acima está no livro “Lugares mágicos – os escritores e suas cidades” de Fernando Savater, lançado este ano pela L&PM. Trata-se de um volume atraente – com texto claro e fluente – que nos faz viajar por cidades e paisagens que inspiraram e marcaram alguns dos maiores escritores de todos os tempos (o espanhol Savater, nascido em 1947, é filósofo e escritor; catedrático de ética na Universidade do País Basco e professor de filosofia na Universidade Complutense de Madri).

Segundo Savater, Paz gostava de comer e beber bem; “e era uma boa companhia, como sabem os que tiveram a sorte de se relacionar e dividir a mesa com ele” – acrescenta. O poeta frequentava o restaurante Champs Elysées, no número 300 do Paseo de La Reforma, na cidade do México, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida. Dom Alberto Peña, que o atendeu ali várias vezes, contou a Savater sobre os gostos de Paz.

São pequenas recordações desse tipo – e ainda detalhes sobre a obra dos escritores e de suas cidades natais – que Savater nos apresenta no seu livro-reportagem. Dessa forma, viajamos textualmente pela Praga de Kafka, pela Buenos Aires de Borges, pela Londres de Virginia Woolf, pela Lisboa de Pessoa, pela Florença de Dante, pela Madri de Cervantes, pela Paris dos existencialistas, pela Dublin de Yeats – ou ainda por países ou regiões como o Chile de Neruda, o País Basco de Pío Baroja, a Bretanha de Chateuabriand e o México de Paz.

Falando da Buenos Aires de Borges, por ex., Savater lembra que “é uma cidade riquíssima em termos de bares e cafés”; cita, entre outros, o Café Tortoni – na Avenida de Mayo, o La Paz – na Avenida Corrientes, e o “mítico” Bar Britânico – no Parque Lezama. Mas o lugar mais relacionado a Borges é o La Perla, no bairro Once. Ali Borges se encontrava com Macedonio Fernández e com outros escritores, todos os sábados, onde ficavam até altas horas da madrugada. Borges: “É a desalentada noite festiva do Once, na qual Macedonio Fernández, que já morreu, segue me explicando sobre a morte”.

No Brasil – à moda de Savater – poderíamos lembrar muitas cidades e seus escritores: a Recife de Manuel Bandeira; a São Paulo de Mário de Andrade; a Itabira (e, depois, a BH) de Drummond; a Cordisburgo de Guimarães Rosa; a Salvador de Jorge Amado; o Rio de Machado; a Porto Alegre de Érico Veríssimo… Recentemente, o jornalista Fabrício Marques lançou um livro-pesquisa sobre Belo Horizonte na visão de seus escritores: “Uma cidade se inventa” (Ed. Scriptum) – desde já, uma obra de referência sobre BH.

Savater: “a alma de cada lugar são os criadores humanos – escritores, artistas –, cuja inesgotável fecundidade concede uma aura quase mágica às paisagens em que vivem”.

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