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Torre de marfim?

18/12/2015 11:17:27

Ungaretti: lutando contra as sombras de seu tempo.
Ungaretti: lutando contra as sombras de seu tempo.

Por Carlos Ávila

“É comum dizer-se que o poeta vive ausente da vida, que se entretém apartado na sua torre de marfim. Por favor, abramos juntos os livros de poesia oferecidos aos homens, do começo do século XIX até hoje. Se quisermos ter um testemunho sincero e preciso do drama e da tragédia de nosso tempo, devemos consultar os poetas”.

As palavras acima do grande poeta italiano Giuseppe Ungaretti (1888/1970) – um dos mais importantes do séc. 20 –, numa entrevista a respeito da poesia contemporânea, são de uma precisão e atualidade inegáveis. E Ungaretti estava respondendo a questões colocadas por uma publicação italiana em 1929!

Ungaretti acrescentava que os poetas “experimentaram mais duramente do que qualquer outro o desequilíbrio entre vida ativa e vida contemplativa. Sofreram, gritaram e pagaram por todos”; e exemplificava citando Baudelaire e Leopardi – “poetas do inferno” a seu ver.

Com certeza, nunca houve calmaria e sim mar revolto para os poetas; calmaria é apenas uma rima para poesia, mas não a sua realidade. Para os poetas verdadeiros – aqueles com uma visão crítica da vida, de seu país e do mundo – não há espaço para a mera contemporização diante dos fatos, das pessoas e das coisas.

Ungaretti viveu uma situação-limite. Esteve nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914/18) – uma das maiores tragédias vividas pela humanidade; enquanto servia no exército italiano, publicou seu primeiro livro, “Il porto sepolto” (O porto sepulto), depois reunido com outros poemas em “Allegria di naufragi” (Alegria de naufrágios), em 1919 – resultado de sua vivência na guerra.

Pode um poeta passar incólume pela vida breve e brava? E mais grave ainda: pela estupidez e pela violência de uma guerra, como Ungaretti – “uomo di pena”, como ele próprio se definiu no poema “Pellegrinaggio” (Peregrinação)? Só mesmo tirando leite das pedras-palavras, em meio à barbárie: “ti basta un’illusione/per farti coraggio” (“basta uma ilusão/para te dar coragem”).

Coragem que leva à ação – escrever para não morrer (ou ficar louco). “Foi aquele estado de não aceitação da guerra na guerra, foi aquele estado de extrema lucidez e extrema paixão que determinou com exatidão em meu espírito a validade da missão já entrevista, caso eu devesse atribuir-me uma missão e fosse capaz de cumpri-la, nas nossas letras” – assinalou Ungaretti mais tarde, num ensaio-depoimento dos anos 40/50.

Voltemos aos seus versos de guerra: “Quando trovo/in questo mio silenzio/uma parola/scavata è nella mia vita/come um abisso” (“quando encontro/neste meu silêncio/uma palavra/ela está escavada na minha vida/como um abismo”). Palavras de Ungaretti – palavras de poeta “attaccato alla vita”; ou seja, visceralmente ligado à vida.

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