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Vendo e ouvindo estrelas

23/12/2015 06:00:35

Por Carlos Ávila

Cassiano Ricardo:homenagem ao astronauta Gagarin.
Cassiano Ricardo:homenagem ao astronauta Gagarin.

“Ora direis ouvir estrelas…”. Ou ver estrelas. Os poetas sempre foram ligados às estrelas; ao céu, ao sol e à lua – enfim, aos planetas e ao espaço infinito sobre nossas cabeças. Desde os mais eruditos até os mais populares. Todas as três partes da “Divina Comédia”, de Dante (1265/1321) terminam com a mesma palavra: estrelas. “L’amor che move il sole et l’altre stelle” (O amor que move o sol e as outras estrelas) – o famosíssimo último verso do livro tornou-se uma espécie de signo-insígnia.

Uma letra de canção do poeta Orestes Barbosa (1893/1966), com música de Sylvio Caldas, termina com a seguinte estrofe: “Olho as estrelas cansadas/que são lágrimas doiradas/no lenço azul lá do céu/Estrelas são reticências/estrelas são confidências/ do meu romance e do teu”. Em geral, as estrelas aparecem nos poemas identificadas com o amor.

Os astros (estrelas, planetas etc.) e o silêncio eterno dos espaços infinitos – que espantava o filósofo e físico Pascal – sempre estiveram presentes na poesia universal, inspirando versos e poemas dos mais diversos tipos e linguagens. Para ficar apenas na poesia brasileira do século 20, nunca é demais lembrar alguns textos marcantes, onde esses astros servem de mote ou motivo para a criação. Manuel Bandeira, no seu livro emblematicamente intitulado “Estrela da Tarde”, publicou o poema “Satélite”, onde fala da lua num fim de tarde, desmetaforizada e desmistificada como “coisa em si/satélite”.

Na última fase de sua obra, Cassiano Ricardo se voltou para temas espaciais: vejam-se os poemas “Translação” e “Gagarin” (este uma homenagem ao astronauta russo que foi o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 1961, a bordo da nave Vostok-1). Drummond e Murilo Mendes ficaram fascinados e escreveram sobre o cometa Halley, “iluminando de ponta a ponta o céu de 1910”. Murilo, mais “viajante”, fala ainda em “universos-naves”, “faixas-galáxias”, “Betelgeuse” (uma estrela de brilho variável sendo a 10ª ou 12ª mais brilhante no firmamento, que aparece também em dois poemas de Décio Pignatari), “pluricéus” e “ruído rotação”.

Haroldo de Campos intitulou sua poesia-prosa de “Galáxias” e seu irmão Augusto compôs “Pulsar” e “Quasar”, dois poemas visuais (um pulsar é uma estrela de neutrôns de rápida rotação, o remanescente da explosão de uma supernova; um quasar é uma galáxia distante com uma luz brilhante e variável e outras radições vindas de suas regiões centrais). “Pulsar”, o mais inventivo deles, envia um “abraço de anos luz” a alguém (um outro ser, humano ou inumano; um amigo ou uma pessoa amada), onde quer que ele esteja, “em Marte ou Eldorado”.

Imagens cósmicas aparecem ainda em diversos poemas de Ferreira Gullar, como, por exemplo, em “Pergunta e Resposta”, onde observa que “a Via Láctea é apenas uma/entre bilhões de galáxias/que à velocidade de 300 mil km por segundo/voam e explodem/ na noite”; e indaga: “o que faz aí/meu poema com seu/inaudível ruído?” Já Paulo Leminski escreveu o sensível “Espaçotemponave para Alice”, dedicado à sua companheira, a também poeta Alice Ruiz, que termina com estes versos: “por isso/nos apertar/tanto/nos juntar/tanto/juntos enfrentar/a noite/dos espaços interestelares”.

Vários poetas continuam trabalhando temas ligados à observação celeste, às descobertas e explorações espaciais. Estas vêm se aprofundando com o avanço dos recursos tecnológicos, desde o lançamento, em 1990, do Hubble – um satélite astronômico artificial não tripulado que transporta um grande telescópio para a luz visível e infravermelha. A poesia – verbal ou visual, no papel ou na tela, com movimento e cor – continua pulsando e pulsante em relação aos astros.

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