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Centenários...

30/12/2015 06:00:08

Piaf: "não me arrependo de nada".
Piaf: “não me arrependo de nada”.

Por Carlos Ávila

2015 – ano de alguns centenários marcantes; do diretor Orson Welles e do cantor Frank Sinatra, ambos norte-americanos, e ainda da cantora francesa Edith Piaf. Os três trouxeram criação e emoção ao trágico séc. 20 (cenário de duas guerras mundiais e de outras localizadas; de revoluções e conflitos de todo tipo). As imagens de Welles e as vozes de Sinatra e Piaf sobreviveram a tudo – continuam em nossos olhos e ouvidos; “a thing of beauty is a joy forever” (Keats) – beleza e alegria para sempre.

Welles

Outro dia, numa crônica, Veríssimo lembrava o começo do filme “A marca da maldade” (“Touch of evil”, de 1958) do genial Welles (1915/1985): “uma tomada contínua com uma câmera acrobática que segue os movimentos de um carro e, ao mesmo tempo, revela o cenário em que se passará a historia, uma sórdida cidade de fronteira entre os Estados Unidos e o México – tudo sem um corte”. Esta tomada inicial – pequena obra-prima – termina com a explosão do carro e é acompanhada apenas por uma música ritmada e tensa; coisa de um artesão de imagens, de um inventor no sentido poundiano.

Welles já havia rodado o seu “Cidadão Kane” (1941) – inovador em vários aspectos, segundo críticos e pesquisadores (o “Cahiers de Cinéma” o colocou entre os 12 melhores de todos os tempos). O crítico José Lino Grünewald destaca “a utilização inventiva, arrojada, do movimento de câmera e do enquadramento, o vigoroso tratamento plástico apoiado basicamente numa tradição expressionista e um também extraordinariamente inventivo jogo de pontuações, mediante o corte ou as fusões”. É preciso dizer mais? De “Kane” a “F for fake” (1974) – passando pelo já citado “A marca da maldade” (e por outras películas de destaque) – Welles criou uma nova gramática no cinema; sua influência está por toda parte, até hoje; está, seguramente, entre os grandes inventores do séc. 20 – de Eisenstein a Godard.

Sinatra

Conhecido como the voice – Sinatra (1915/1998) é o grande intérprete da melhor canção norte-americana do séc. 20 (criações de Gershwin, Cole Porter, Rodgers/Hart etc.), que marcou a vida de muita gente: os belos temas românticos, as marcantes baladas traduzidas em tom charmoso e dicção impecável (os versos soam claros). Quem canta melhor do que ele “All of me”, “Night and Day”, “Body and soul”, “Time after time” e tantas outras canções inesquecíveis? Numa crônica recente, Sérgio Augusto – sinatrólatra – lembrou que “Miles Davis confessou ter modelado o seu estilo de tocar pelos fraseados do cantor”.

E ainda temos Sinatra cantando o nosso Jobim; pérolas como “Dindi”, “Corcovado”, “Meditação”, “Insensatez”, “Triste”, Wave”, “Bonita” e até a delicada “Sabiá” (parceria do maestro com o Chico). Sinatra – sua voz continuará embalando as noites regadas a um velho e bom scotch, com uma bela companhia feminina; Sinatra – the song is you.

Piaf

“Non… Rien de rien…/Non… Je ne regrette rien/Ni le bien qu’on m’a fait,/Ni le mal – tout ça m’est bien égal!” Piaf (1915/1963) não se arrependia de nada; cantava com alma e coração, tristezas e alegrias de sua vida breve e dramática. Foi das ruas aos cabarés – e daí aos grandes palcos do mundo. Criou – com sua voz de “pardalzinho de Paris” – alguns clássicos inesquecíveis como “La vie em rose”, “Hymne a l’amour”, “Sous le ciel de Paris”,”Ne me quitte pas”,“Je ne regrette rien” etc.

Piaf era amiga e musa de Jean Cocteau – o poeta/cineasta francês morreu poucas horas depois dela; ela com 47, e ele, invertendo os números, com 74 anos: “Ela transcende a si mesma, às suas canções, à música, às palavras. Não é mais Madame Edith Piaf quem canta, é a chuva caindo, é o vento soprando, a lua espalhando seu manto de luz”.

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