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Adeus a Gilberto Mendes

06/01/2016 06:00:47

O santista Mendes: amor à música e ao mar.
O santista Mendes: amor à música e ao mar.

Por Carlos Ávila

Nem bem 2016 começou e, infelizmente, já perdemos Gilberto Mendes – um dos mais importantes compositores da “música impopular brasileira”, ou seja, da chamada música erudita (clássica ou “de concerto”, se preferirem) no país; o compositor faleceu aos 93 anos, em Santos, sua cidade natal, no primeiro dia do ano novo.

Gilberto aprendeu piano com Antonieta Rudge e harmonia com Sabino de Benedictis; fez parte de uma geração que renovou a música por aqui, a partir das ideias trazidas da Europa pelo professor e compositor Koellreutter. Integrou um grupo do qual faziam parte, entre outros, Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Willy Corrêa de Oliveira. Este grupo lançou, em 1963, nas páginas da revista “Invenção” (porta-voz da vanguarda poética brasileira da época), o famoso e hoje histórico “Manifesto da música nova”.

Agitador cultural, Gilberto criou, nos anos 1960, o Festival Música Nova – para divulgar a produção musical contemporânea por meio de concertos, com a presença de músicos e compositores não só nacionais, mas também estrangeiros. Para nossa alegria, Gilberto esteve algumas vezes em Minas, para concertos e palestras, no famoso Festival de Inverno de Ouro Preto, no Palácio das Artes e na Fundação de Educação Artística dirigida pela (nas suas próprias palavras) “suave Berenice Menegale”.

Gilberto tem músicas gravadas e executadas em todo o mundo (viajou muito por conta disso; recebeu prêmios e homenagens). “Motet em ré menor: Beba Coca Cola” – sobre um poema de Décio Pignatari – é sua composição mais conhecida. Trata-se de uma peça coral divertida e crítica, uma espécie de antipropaganda, incluindo efeitos microtonais, falados e expirados nas vozes (até um arroto!), com um final cênico: os cantores abrem uma faixa onde se lê “cloaca”, enquanto gritam essa palavra (a última do poema) três vezes, como se estivessem num comício ou passeata.

O compositor era muito próximo da poesia; musicou também poemas de Drummond, Cecília Meireles (a “fala inicial” do “Romanceiro da Inconfidência”), Hilda Hilst, Vinicius (“Poema dos olhos da amada”), José Paulo Paes, Augusto e Haroldo de Campos, Affonso Ávila, Ronaldo Azeredo etc. Já suas peças apenas instrumentais – para orquestra e outras formações musicais – são inúmeras; algumas delas, como “Saudades do Parque Balneário Hotel”, foram gravadas em CD pelo conjunto belga Spectra Ensemble.

Gilberto curtia cinema e futebol (compôs “Santos Football Music”); também a música popular – trilhas de filmes (Nino Rota, por ex.) e, especialmente, a música norte-americana: o jazz – Duke Ellington e Benny Goodman – e as canções dos filmes de Hollywood e dos musicais da Broadway (Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin).

Tema do documentário “A Odisseia Musical de Gilberto”, o compositor deixou vários livros publicados, como o ótimo “Música, cinema do som” (Ed. Perspectiva, 2013). Gilberto vai fazer falta, pela sua criatividade e bom-humor – mas teve, sem dúvida, uma bela e longa vida.

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