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Cadernos de Aníbal

08/01/2016 06:00:05

Aníbal: amostras de cerâmica verbal.
Aníbal: amostras de cerâmica verbal.

Por Carlos Ávila

Em geral, os escritores usam cadernos para anotar ideias, frases ou versos soltos que lhes vêm à cabeça, “núcleos” de contos e poemas etc. Enfim, material a ser reaproveitado ou retrabalhado posteriormente. Mesmo nesta época de computadores, tablets e smartphones – canetas e moleskines (usados no séc. 20 por artistas e escritores como Picasso e Hemingway) ainda são úteis e necessários ao trabalho literário.

A palavra cadernos traz à lembrança o escritor mineiro Aníbal Machado (1894/1964), autor de “Cadernos de João” – lançado em 1957, em edição da José Olympio, com vinhetas/ilustrações de Manuel Segalá (artista, impressor e editor catalão que veio para a América do Sul e acabou se radicando no Brasil; criou aqui as Edições Philobiblion – belos livros artesanais, muitos de poesia; a maioria ilustrada por ele mesmo).

Mas voltemos a Aníbal; no pórtico do seu “Cadernos de João” (um conjunto de textos fragmentários/experimentais, mesclando poesia e prosa), ele define o que seria caderno: “Mapa irregular do nosso descontínuo interior, com os fragmentos, vozes, reflexões, imagens de lirismo e revolta – inclusive amostras de cerâmica verbal – dos muitos personagens imprecisos que o animam. Afloramento de íntimos arquipélagos, luzir espaçado das constelações predominantes…”.

Acrescenta, finalmente: “o autor apenas se reserva o direito de administrar o seu próprio caos e de impor-lhe certa ordem na tranquilidade formal das palavras”.

Na verdade, o livro-caderno de Aníbal reunia dois volumes anteriores, revistos e aumentados: o “ABC das catástrofes – Topografia da insônia”, de 51, e “Poemas em prosa”, de 55. Ambos lançados, respectivamente, pelas editoras Hipocampo e Civilização Brasileira (coleção Maldoror), em pequena tiragens.

Homem culto – bem informado e bem relacionado – Aníbal escreveu ficção (contos e o romance “João Ternura”), ensaios (sobre Machado, Walt Whitman etc.) e crítica de artes plásticas, cinema e teatro; nascido em Sabará (MG), radicou-se no Rio – sua open house em Ipanema, nos anos 50, concentrava artistas, intelectuais e jornalistas.

Seguem abaixo três lances da depurada e certeira “cerâmica verbal” de Aníbal em “Cadernos de João” – livro sem gênero; prazer do texto.

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Nada pode contra o poeta. Nada pode contra esse incorrigível que tão bem vive e se arranja em meio aos destroços do palácio imaginário que lhe caiu em cima. Poeta, recuperador da presença perdida…

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As palavras que te vão servir; as mais nuas; as que, apesar da ganga de reflexos mortos de que são portadoras, ainda não perderam a pureza e irradiação originárias – essas palavras só chegarão ao teu poema depois de afastares aquelas ou a combinação daquelas que tamanha confusão e barulho costumam fazer à entrada de teu espírito.

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Chamado a depor, o poeta denuncia de novo o assalto dos homens contra o homem. Escutam-no em silêncio. E quando começa a formular com firmeza a sua nova esperança, obrigam-no a voltar às grades.

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