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Virgínia por Fróes

13/01/2016 12:27:29

Virgínia: resenhas como ganha-pão.
Virgínia: resenhas como ganha-pão.

Por Carlos Ávila

Um dos mais competentes e produtivos tradutores brasileiros, Leonardo Fróes – também poeta (recentemente publicou a antologia”Trilha”, pela Azougue Editorial) – verteu para o português uma seleção de ensaios de Virgínia Woolf (1882/1941): “O valor do riso – e outros ensaios” (Cosac Naify, 2014). A grande ficcionista inglesa, segundo Fróes – na sua breve e esclarecedora introdução –, “estava com 22 anos em 1904, quando fez do jornalismo literário, produzindo sobretudo resenhas, seu primeiro e constante ganha-pão”.

Os textos de Virgínia eram jornalísticos – ou seja, produzidos em ritmo rápido, com síntese e informações condensadas; ideias e opiniões de uma escritora “antenada”, inventiva e original (como nos seus romances): sensível às transformações de seu tempo. Breves ou longos, esses textos – com temas variados – oscilam entre a resenha e o ensaio de mais largo fôlego; muitas vezes, com toques autobiográficos. Ainda atual, em muitos aspectos, essa prosa crítica de Virgínia “insta o leitor” – na visão de Fróes – “a dialogar com sua escrita”. Seguem aqui alguns fragmentos desses textos – palavras precisas, claras e raras; Virgínia vive.

O riso

Todas as excrescências horrendas que invadiram nossa vida moderna, as pompas e convenções e solenidades maçantes, nada temem tanto quanto o brilho de um riso que, como o relâmpago, as faz tremer e deixa os ossos expostos.

Método

Se somos escritores todos os métodos estão corretos, qualquer método serve, desde que expresse o que desejamos expressar; e isso nos traz mais perto, se somos leitores, da intenção do romancista.

Ler

Ler um romance é uma arte complexa e difícil. Não só de muita agudeza de percepção, mas também de muita audácia de imaginação você terá de ser capaz para poder fazer uso de tudo o que o romancista – o grande artista – lhe dá.

O fracasso da poesia

Ninguém de fato pode ler muita literatura moderna sem se dar conta de que alguma insatisfação, alguma dificuldade, se acha em nosso caminho. Os escritores estão tentando, por toda parte, o que não conseguem realizar, estão forçando a forma que utilizam a conter um significado que para ela é estranho. Muitas razões poderiam ser dadas para isso, mas que apontemos aqui apenas uma, qual seja, o fracasso da poesia em nos servir como serviu a tantas gerações de antepassados. A poesia já não nos presta seus serviços com aquela mesma liberdade que tinha em relação a eles. O grande canal de expressão pelo qual se escoou tanta energia, tanto talento, parece ter se estreitado ou sofrido algum desvio.

Biografia

A imaginação do artista, em sua intensidade máxima, elimina o que há de perecível nos fatos; ele constrói com o que é durável; mas o biógrafo tem de aceitar o perecível, construir com isso, embuti-lo no próprio arcabouço de seu trabalho. E assim chegamos à conclusão de que ele é um artesão, não um artista; e sua obra não é uma obra de arte, mas algo que se situa bem de permeio.

Resenha

A resenha se tornou a expressão de uma opinião individual, dada sem nehuma tentativa de se referir aos “padrões eternos” por um homem que está com pressa; que dispõe de pouco espaço; que cria a expectativa de satisfazer a variados interesses nesse pequeno espaço; que é incomodado pela consciência de não estar cumprindo sua tarefa; que tem dúvidas quanto ao que seja essa tarefa; e que finalmente é forçado a se resguardar.

Contra a corrente

“Não desistirei da luta mental”, escreveu Blake. E luta mental significa pensar contra a corrente, não com ela.

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